A pouquíssimos meses do pleito, uma das perguntas mais frequentes nos bastidores políticos é: por que os números de intenção de voto oscilam tanto? Para compreender essa dinâmica, o primeiro passo é desmistificar a pesquisa eleitoral. Ela não é uma previsão do futuro, mas sim uma fotografia instantânea de um momento volátil, que reage a estímulos políticos, econômicos e sociais. E, pasmem os senhores, reage também a fatores criminosos, como a compra de votos, capaz de alterar o destino de uma eleição.
Um exemplo prático e recente ocorreu em Mato Grosso do Sul. O TRE/MS reconheceu a ocorrência de compra de votos nas eleições municipais de 2024 em Campo Grande. Contudo, a Corte decidiu manter o resultado do pleito. Os magistrados admitiram que os atos irregulares de fato irrigaram os bairros da capital, mas entenderam que faltou nos autos a prova de “anuência” das candidatas. Ou seja: o Pix caiu e o voto veio, mas sem a assinatura das cabeças da chapa. O processo segue em andamento por meio de recursos e novos desdobramentos da Polícia Federal.
À medida que o calendário avança, o eleitorado é bombardeado por fatos que alteram o cenário. O primeiro marco é o início do horário eleitoral gratuito e dos debates. Essa exposição apresenta candidatos desconhecidos e testa a capacidade de comunicação dos líderes. Um desempenho marcante — seja consolidando uma liderança ou expondo fraquezas alheias — tem o poder de movimentar massas de eleitores que ainda não haviam parado para refletir sobre a disputa.
Paralelamente, o avanço da corrida traz as campanhas de desconstrução e ataque. No início, os golpes costumam resgatar o passado do candidato para fixar uma alta taxa de rejeição logo na largada. No meio do caminho, o foco se torna técnico, explorando vazamentos de investigações ou acionando canais oficiais contra o uso indevido da máquina pública. Na reta final, a agressividade atinge o ápice com o “fato novo”: denúncias bombásticas guardadas para a última semana. O grande perigo desse período é o tempo hábil; notícias falsas ou laudos adulterados podem influenciar o eleitor antes que a Justiça ou a imprensa consigam restabelecer a verdade.
É bem verdade que a forte polarização moderna alterou o impacto desses escândalos. Hoje, o eleitorado mais ideológico tende a tolerar falhas do seu candidato preferido por enxergar o oponente como um “mal maior”. Com isso, escândalos tradicionais perderam parte do poder de transferir votos.
Ainda assim, o jogo permanece aberto até o último minuto devido à decisão tardia de grande parte da população, que só escolhe seu candidato nos dias derradeiros. É nessa reta final que o número de indecisos desaba e entra em cena a estratégia do voto útil, onde eleitores abandonam candidatos com poucas chances para focar em quem pode vencer ou ir ao segundo turno.
Para combater as irregularidades que tentam distorcer essa fotografia, o cidadão tem um papel crucial. O aplicativo Pardal, disponível para celulares e na versão web do TSE, é a ferramenta oficial da Justiça Eleitoral para denunciar crimes graves como a compra de votos. Enquanto queixas de propaganda irregular vão para os juízes locais, os indícios de corrupção eleitoral são encaminhados diretamente ao Ministério Público Eleitoral (MPE) para investigação criminal.
Por Antonio Ueno, cientista político





