A 1ª edição do programa Jornal da Top, da Rede Top FM, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, entrevistou, nesta terça-feira (21), o meteorologista Natálio Abrahão, que focou em sua carreira e nas causas e impactos das mudanças climáticas, especialmente em Mato Grosso do Sul.
“As mudanças climáticas já deixaram de ser uma projeção para se tornarem uma realidade, com reflexos cada vez mais evidentes em Mato Grosso do Sul”, destacou ao analisar os impactos do aquecimento global e explicar os fenômenos atmosféricos que influenciam o clima brasileiro.
Com 79 anos de idade e 56 anos dedicados à meteorologia, Natálio Abrahão é uma das principais referências do Estado na área. Nascido em Campo Grande, ele se formou em Meteorologia em 1971, após ingressar na Força Aérea Brasileira, onde inicialmente buscava uma carreira ligada à aviação.
Ao longo da trajetória, especializou-se em geofísica atmosférica no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), atuou em diferentes regiões do país, incluindo Norte, Nordeste e Rio Grande do Sul, trabalhou na aviação civil e atualmente também exerce atividades no ensino superior.
Segundo o meteorologista, a principal lição acumulada em décadas de profissão é compreender a relação entre as pessoas e o ambiente em que vivem. Durante a entrevista, Natálio Abrahão afirmou que não há mais dúvidas científicas sobre a origem das mudanças climáticas.
Para ele, o aumento da concentração de gases de efeito estufa, provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, aliado ao avanço do desmatamento, alterou profundamente o equilíbrio climático.
O especialista explicou que a retirada da vegetação compromete o ciclo natural da umidade. Sem cobertura vegetal, parte da umidade transportada dos oceanos deixa de precipitar sobre o continente, reduzindo as chuvas e agravando os períodos de seca.
Outro ponto de preocupação destacado por ele é a situação da Amazônia. Segundo o meteorologista, cerca de 27% da floresta já foi desmatada e, caso esse índice alcance aproximadamente 33%, poderá ser ultrapassado um ponto considerado irreversível para a manutenção do bioma.
Além da Amazônia, Natálio defende maior fiscalização e preservação de ecossistemas como o Pantanal e o Cerrado, fundamentais para o equilíbrio climático da região Centro-Oeste.
O meteorologista também chamou atenção para o aumento das temperaturas médias registrado nas últimas décadas em Campo Grande. De acordo com ele, a média anual da Capital passou de 24,2°C, na década de 1970, para aproximadamente 26,9°C atualmente, representando um aumento superior a dois graus em cerca de 50 anos.
Além das mudanças climáticas globais, Natálio destaca que a expansão urbana também contribui para esse aquecimento, já que o crescimento horizontal da cidade amplia áreas impermeabilizadas e reduz espaços de vegetação.
Esse cenário, segundo ele, favorece tempestades mais intensas, como as registradas recentemente em Campo Grande, que provocaram alagamentos em importantes avenidas, inclusive nas regiões da Via Parque e da Uniderp, onde veículos chegaram a ser arrastados pela força da água.
El Niño
Na avaliação do especialista, os efeitos do El Niño deverão se intensificar a partir de setembro, quando o Oceano Pacífico poderá registrar temperaturas superiores a 1°C acima da média.
Ele explica que o aquecimento das águas superficiais aumenta a evaporação e modifica a circulação atmosférica, alterando a distribuição das chuvas em grande parte da América do Sul, enquanto para o Sul do Brasil a tendência é de chuvas frequentes, tempestades severas, granizo e enchentes.
Já em Mato Grosso do Sul, o comportamento será distinto entre as regiões.
No sul do Estado, as chuvas deverão ocorrer de forma mais regular, beneficiando principalmente a agricultura. “No norte sul-mato-grossense, abrangendo municípios entre Campo Grande e Sonora, a expectativa é de precipitações escassas ou bastante irregulares, acompanhadas de temperaturas extremamente elevadas”, ressaltou.
Natálio Abrahão afirma que, entre meados de setembro e o início de novembro, Mato Grosso do Sul poderá registrar as maiores temperaturas de sua história. “A projeção apresentada para algumas localidades é de que poderão alcançar até 46°C, enquanto outubro poderá ter vários dias consecutivos com máximas superiores a 40°C, associadas à baixa umidade relativa do ar”, detalhou.
Apesar do cenário previsto para a primavera, o meteorologista observa que julho deverá apresentar comportamento diferente do habitual. “Historicamente considerado um dos meses mais secos do ano, o período ainda pode registrar chuvas atípicas em Campo Grande e na região leste do Estado, especialmente em Três Lagoas”, pontuou.
Já agosto deverá retomar as características típicas do inverno sul-mato-grossense, com precipitações praticamente inexistentes, temperaturas acima de 36°C em Campo Grande e índices muito baixos de umidade do ar.
Ao final da entrevista, Natálio Abrahão ressaltou que a divulgação antecipada das previsões meteorológicas é essencial para permitir o planejamento de diferentes setores da sociedade.
“Agricultura, saúde pública, Defesa Civil e gestores municipais precisam utilizar essas informações para adotar medidas preventivas diante da perspectiva de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, resultado direto das mudanças climáticas que já alteram o comportamento do tempo em Mato Grosso do Sul e em todo o planeta”, recomendou.
Assista a entrevista completa pelo link:









