Em uma entrevista ao Jornal da Top, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, a docente, pesquisadora e pré-candidata a deputada federal Eugênia Portela (PCdoB) compartilhou detalhes de sua história de superação por meio do ensino público e debateu os principais gargalos sociais de Mato Grosso do Sul, como a violência contra a mulher, o racismo estrutural e a precarização do trabalho docente.
Uma Trajetória Firmada na Escola Pública
Eugênia Portela destaca que sua ascensão social e acadêmica não é fruto de uma “meritocracia isolada”, mas sim do apoio familiar e da base recebida na educação pública. Filha de pai ferroviário e mãe lavadeira, ela relata ter sido a caçula de sete irmãos. Diferente das irmãs mais velhas, que precisaram trabalhar cedo como empregadas domésticas, Eugênia teve a oportunidade de focar nos estudos.
Graduou-se em pedagogia, realizou o antigo Magistério e seguiu o caminho acadêmico, tornando-se mestra pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e doutora pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Em 2015, concluiu seu pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente, é professora associada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde atua na pós-graduação e coordena o projeto Abdias do Nascimento, que fomenta a internacionalização e o acesso de negros e indígenas à pós-graduação.
Combate ao Racismo e Letramento Racial
Especialista em políticas afirmativas e relações étnico-raciais, a professora alertou para o fato de o racismo ser uma questão estrutural e institucional no Brasil. Segundo ela, o combate à desigualdade não deve ser um peso carregado individualmente pela população negra. Eugênia defende a necessidade de um “letramento racial” por parte de toda a sociedade e o cumprimento efetivo das Leis 10.639 e 11.645 na educação básica (que tratam do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena). Contudo, ela ressalta que falta amparo do poder legislativo aos professores que tentam pautar esses temas em sala de aula.
A Crise e a Violência na Educação Básica
Ao analisar os desafios atuais do ensino, a docente demonstrou profunda preocupação com a integridade física e mental dos professores nas escolas. Eugênia apontou que os profissionais enfrentam uma “violência simbólica”, sendo hostilizados ou desautorizados por alunos, pais e até parlamentares que tentam cercear e vigiar a atividade docente.
Outro ponto crítico levantado foi o excesso de contratações temporárias em detrimento de concursos públicos, o que, segundo ela, gera ansiedade financeira nos educadores e funciona como uma ferramenta de controle e exploração política do trabalhador da educação.
Permanência Universitária, Defesa da Mulher e Saúde Pública
Ao justificar os motivos de sua pré-candidatura pela federação PT/PV/PCdoB, Eugênia delineou três eixos centrais de atuação caso chegue à Câmara Federal:
- Permanência Estudantil: Argumentou que o acesso à universidade foi democratizado, mas os filhos da classe trabalhadora sofrem para se manter em cursos integrais, gerando altos índices de evasão na ciência e tecnologia.
- Proteção à Mulher e à Infância: Sendo Mato Grosso do Sul um estado com altos índices de feminicídio, ela cobrou políticas que protejam as mulheres e deem suporte aos órfãos da violência doméstica.
- Fortalecimento do SUS: Criticou severamente a atual gestão de regulação de vagas na saúde de Mato Grosso do Sul, definindo-a como uma “necropolítica” — onde cidadãos morrem em filas de espera aguardando o atendimento de médicos especialistas como cardiologistas e nefrologistas.
Com vasta experiência em disputas eleitorais anteriores, Eugênia Portela concluiu reafirmando que aceitou o desafio de concorrer ao cargo federal para garantir que temas fundamentais como a justiça social, os direitos humanos e a educação pública de qualidade permaneçam no centro do debate político do estado.







