Barracos – Ex-moradores da Cidade de Deus esperam por socorro da prefeitura Municipal

Era 7 de março de 2016, famílias daquela que era a mais antiga e maior favela de Campo Grande começaram a ser transferidas pela prefeitura para diferentes áreas em quatro regiões da Capital: Bom Retiro, Jardim Canguru, Vespasiano Martins e Dom Antônio Barbosa. A medida foi tomada para liberar a área ocupada pela Cidade de Deus para fins ambientais relacionados ao aterro sanitário da Capital, havendo a promessa de que as famílias iriam para locais que melhor comportassem suas necessidades.

De lá para cá, porém, a situação continua a mesma –senão piorou. Após nove meses em barracos improvisados, convivendo com alagamentos e as mais improváveis necessidades básicas, a favela persiste, mas agora, no lugar de uma, são quatro, com os problemas que vão da ausência de rede de esgoto à inexistência de moradia digna.

Os moradores das favelas reclamam que não vêm recebendo o auxílio da prefeitura, nem mesmo após a chuva de quinta-feira (8) que deixou boa parte da cidade caótica e diversos barracos das comunidades carentes, destruídos.

No Jardim Canguru –sul da Capital–, moradores relatam que já estão cansados de esperar que a prefeitura finalize as casas conforme prometido pelo Executivo desde o começo do ano. “Nós mesmo é que estamos telhando as nossas casas, não dá para esperar a prefeitura terminar isso aqui não. Quem tem mais condição compra os materiais, paga alguém ou faz mutirão para concluir a obra, esperar por eles [prefeitura] é que não dá”, desabafa a estudante Ana Carolina Jesus de Souza, 18.

No bairro vizinho, o Vespasiano Martins, quem mais sofre são os moradores que residem na parte baixa do terreno em que as casas começaram a ser fundadas. “Poça de lama, aqui cria até virar brejo, vira um lodo só. Tem também a questão do lixo que a prefeitura orienta para amontoar na frente de casa e diz que vai recolher, mas tem lixo aqui que está jogado na rua desde quando viemos para cá. É um desrespeito do tamanho do mundo com a gente. Até onde eu sei, ainda somos humanos”, indigna-se Jose Lindalvo Freire, 61.

Com as chuvas, os problemas só aumentam. “Qualquer chuva que dá isso aqui vira um barreiro que só, sem contar que as casas alagam todas e as ruas ficam intransitáveis. É poça de água para todo lado, barro, ficamos ilhados dentro de casa, o que também não é nada confortável porque chove tudo dentro. Às vezes chove mais dentro do que fora de casa”, conta a diarista Brenda Lily, 44, moradora do Bom Retiro –norte de Campo Grande.

“Eu tenho a casa mas não desmontei o barraco ainda. Tenho a impressão de que ele é bem mais resistente que a casa, principalmente em dia de chuva e ventos fortes como na semana passada”, diz Brenda.

“Pra mim foi um atraso de vida, onde já se viu casas simples como essas demorarem um ano para ficarem prontas?”, questiona a dona de casa Leni Santina, 42.

No Dom Antonio Barbosa –região sul– a situação é ainda mais complicada. Não bastasse a falta de segurança, a comunidade ainda sofre com a invasão de animais peçonhentos provenientes dos montes de lixos espalhados pelas ruas do bairro. “Não desmereço porque aqui já tem gente que já está dentro da casa, e os outros, se Deus quiser logo estarão. Mas lá [na Cidade Deus] nossos barracos eram mais sólidos, não era qualquer vento que derrubava, não. Aqui todo dia é um escorpião, uma cobra que aparece. Até teiú esses dias as crianças acharam”, comenta a dona de casa Janice Pereira, 28.

“A gente espera que as coisas mudem. Tem de mudar, e eu acredito que vai ser para melhor porque do jeito que está aqui, é impossível ficar pior. É só o que eu peço para esse ano que tá chegando”, desabafa Leni.

“Reclamar, ir na prefeitura, acionar a imprensa não resolve. Já tentamos de tudo e o jeito é se acostumar e viver com o que tem do jeito que dá, não é mesmo”, entrega Brenda.

Em março do ano que vem será completado um ano da extinção da antiga Cidade de Deus.

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