Na vida, a gente não pode apenas existir. A gente sonha, constrói, luta e vai em busca dos ideais mais profundos. Queremos vencer, ser úteis e deixar um legado gravado na história. Eu tenho um lema que carrego na alma e que resume a minha trajetória: “Eu não nasci para ver a banda passar, eu quero estar na banda, de preferência regendo a banda”. Sou audacioso. Enfrento barreiras de peito aberto. Costumo dizer que o meu carro até tem marcha ré, mas o objetivo é sempre — e rigorosamente — seguir em frente.
Foi com essa garra inabalável que encarei o maior desafio da minha vida após as eleições municipais de 2008. Concorrendo pelo PT do B (Avante), conquistei 3.070 votos em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Fiquei como primeiro suplente. Mas o que parecia o fim de uma linha era, na verdade, o estopim de uma revolução.
Em uma canetada brusca e desleal, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia ceifado milhares de vagas de vereadores pelo país, calando a representatividade de milhões de cidadãos de pequenos e grandes municípios. Diante daquela injustiça, eu me recusei a aceitar o papel de espectador.
No dia 2 de fevereiro de 2009, desembarquei em Brasília, eu e muitos amigos e companheiros de luta. O objetivo? Mudar a Constituição Federal.
A linha de frente e o pioneirismo Digital
A classe política tradicional olhava para nós e repetia a mesma palavra, como um mantra de desânimo: “Impossível”. Afinal, sabíamos que para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), precisávamos do voto de dois terços do Congresso Nacional. Mas o impossível é apenas uma opinião para quem tem orgulho do que defende.
Montamos nossa base de operações. Alugamos um escritório no Kubitschek Plaza Hotel e fundamos a Frente Legislativa Brasileira (FLB). Dali, protagonizamos um feito histórico: fomos o primeiro grupo político do Brasil a utilizar de forma estratégica e massiva as redes sociais da época — Orkut, MSN, Blogs, Hotmail e torpedos SMS — para unificar uma força avassaladora. Aglutinamos 9 mil suplentes de todos os cantos da nação.
Formamos um exército plural, democrático e obstinado. Havia suplentes de todas as classes sociais. De municípios gigantescos como São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza, a pequenas e vibrantes localidades como a nossa Ribas do Rio Pardo. A dedicação era comovente. Tinha suplente que viajava para Brasília de carona, de ônibus, de carro, de avião de linha e, sim, filhos de empresários, usineiros e políticos tradicionais que chegavam em jatinhos. Todos unidos pelo mesmo propósito.
Dentro de nove meses, a nossa rotina era uma verdadeira operação de guerra: mantínhamos uma média de 1.500 suplentes todas as semanas no Distrito Federal. Ocupávamos as portas dos gabinetes, os plenários e as comissões. À noite, o trabalho não parava: convidávamos senadores e deputados para articulações intensas.
Nessa caminhada, dialogamos com os grandes nomes da República: Fernando Collor, Tasso Jereissati, José Sarney, Aloizio Mercadante e o saudoso Romeu Tuma. Tive o privilégio de comer um espetinho descontraído com o atual ministro do STF, Flávio Dino, que foi o nosso brilhante relator na Câmara.
“Vamos pautar essa PEC no Senado e votar. Vamos aprovar para nos livrarmos de vocês, porque não aguentamos mais ver suplentes de vereadores ocupando cada corredor deste Congresso!” — José Sarney, após quatro meses de nossa incansável pressão nos bastidores no Senado.
O triunfo da Democracia e do bolso do cidadão
E a promessa se cumpriu. O Senado aprovou. Em seguida, o então presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, com quem dialogamos intensamente em um “lobby responsável”, pautou e a Câmara votou.
No dia 23 de setembro de 2009, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 58, a histórica PEC dos Vereadores.
Foi uma realização monumental. Uma vitória glamorosa do direito de representação sobre a burocracia. A nova legislação alterou os artigos 29 e 29-A da Constituição, readequando de forma proporcional e moralizadora o número de cadeiras conforme a população (garantindo que Campo Grande, por exemplo, saltasse justamente de 21 para 29 vereadores, trazendo pluralidade e abrindo espaço para novas vozes partidárias).
Mas a nossa maior vitória foi mostrar que o fortalecimento da democracia não precisava custar caro ao bolso do cidadão. Muito pelo contrário! A PEC reduziu drasticamente o percentual máximo das receitas municipais repassadas para o custeio das Câmaras (o duodécimo).
- O Impacto Real: Somente no ano de 2010, os prefeitos de todo o Brasil deixou de repassar mais de 3 bilhões de reais para o Legislativo. Um dinheiro valioso que ficou nos cofres do Executivo para ser investido onde o povo mais precisa: em saúde, saneamento e educação.
O legado de um vencedor
Hoje, atuando como cientista político, empresário e diretor do Instituto Ranking Pesquisa e da Rede Top FM, olho para trás com o coração transbordando de orgulho. Aquela jornada me ensinou que barreiras existem para ser superadas e que a convicção é a arma mais poderosa de um líder.
Coração nenhum aguenta a emoção de saber que as páginas da nossa Constituição guardam mais do que leis. Ali, no desenho da representação política e do respeito ao dinheiro público, está eternizado o suor, as lágrimas e a alma de tantos amigos queridos e de um sonhador que nunca teve medo de ir à luta. Vencemos!
“A luta valeu a pena, porque quem tem garra recusa o papel de espectador: prefere ser o autor da própria história.”
Por Antonio Ueno (Tony)






















































