Por muito tempo, consolidou-se no imaginário coletivo a ideia de que Mato Grosso do Sul é um Estado essencialmente conservador. A leitura, à primeira vista, parece encontrar respaldo em aspectos culturais, econômicos e no perfil de parte significativa do eleitorado. No entanto, uma análise mais atenta da trajetória política sul-mato-grossense revela nuances que desafiam essa classificação simplista.
O que é, afinal, conservadorismo?
O conservadorismo, no campo político, é uma corrente que valoriza a preservação de instituições tradicionais, a estabilidade social, o respeito à ordem estabelecida e mudanças graduais, em oposição a transformações abruptas. Em termos práticos, tende a defender estruturas econômicas consolidadas, valores familiares tradicionais e uma atuação estatal mais cautelosa em relação a reformas profundas.
Sob esse prisma, Estados com forte presença do agronegócio, estruturas sociais mais tradicionais e menor histórico de mobilizações sociais radicais costumam ser enquadrados como conservadores, categoria na qual Mato Grosso do Sul frequentemente é incluído.
Um histórico que desafia o rótulo
Apesar dessa percepção, a história política do Estado apresenta elementos que tensionam essa narrativa. Desde sua criação, no final dos anos 1970, tivemos políticos ditos como progressistas, no sentido mais amplo da palavra. O poder se revezava, basicamente, entre os grupos de Wilson Barbosa Martins – esse sim, um político de ideias progressistas; e Pedro Pedrossian, que apesar de alinhar a grupos mais conservadores, como produtores rurais, trazia em sua governança o progresso através de obras visionárias e estruturantes.
A partir dos anos 1990, o Partido dos Trabalhadores (PT), tradicionalmente associado à esquerda, governou Mato Grosso do Sul por dois mandatos consecutivos sob a liderança de Zeca do PT, entre 1999 e 2006.
Durante esse período, foram implantadas políticas profundamente estruturantes, como o Fundersul (Fundo de Desenvolvimento do Sistema Rodoviário), além do incentivo a festivais culturais e estratégias de ampliação da arrecadação estadual. Medidas que, embora dialoguem com o desenvolvimento econômico, também carregam traços de planejamento estatal e investimento público — características frequentemente associadas a governos de perfil progressista.
Lideranças de esquerda com forte respaldo popular
A trajetória eleitoral de lideranças vinculadas à esquerda também reforça a complexidade do cenário. Zeca do PT não apenas governou o Estado, como também acumulou expressivas votações ao longo de sua carreira, tendo sido o deputado federal mais votados da história local e, posteriormente, o vereador mais votado de Campo Grande.
Outro exemplo é Vander Loubet, também do PT, que construiu uma carreira sólida com seis mandatos consecutivos como deputado federal — um feito que evidencia continuidade e respaldo eleitoral consistente.
Mais recentemente, a eleição de Camila Jara, uma das parlamentares mais votadas do Estado, demonstra a permanência de espaço político para candidaturas de perfil progressista. Em seu desempenho eleitoral, inclusive, superou nomes associados à direita bolsonarista, como o deputado conhecido como “Gordinho do Bolsonaro”, reforçando a ideia de um eleitorado mais diverso do que se supõe, já em sua primeira disputa de eleição federal.
Um Estado jovem, em construção
Outro fator relevante é a própria juventude institucional de Mato Grosso do Sul. Criado em 1977, o Estado é um dos mais novos da Federação brasileira. Essa condição implica uma identidade política ainda em formação, aberta a influências diversas e menos cristalizada do que em regiões com tradições políticas mais antigas.
Essa juventude pode explicar a coexistência de tendências aparentemente contraditórias: de um lado, valores conservadores enraizados em setores econômicos tradicionais; de outro, a abertura a experiências políticas distintas, incluindo gestões de esquerda e lideranças progressistas com forte votação.
Entre o rótulo e a realidade
Diante desse panorama, a definição de Mato Grosso do Sul como um Estado estritamente conservador se mostra, no mínimo, incompleta. A alternância de poder, a força eleitoral de lideranças de diferentes espectros ideológicos e a própria dinâmica social indicam um cenário mais plural.
A pergunta que permanece é se o conservadorismo atribuído ao Estado reflete, de fato, a complexidade de sua população ou se se trata de um rótulo simplificador, que ignora as múltiplas camadas de sua história política.
Mais do que uma resposta definitiva, o debate convida à reflexão: Mato Grosso do Sul é conservador — ou é, antes, um Estado em constante construção, onde diferentes correntes convivem e disputam espaço de forma contínua?
Por Rogério Alexandre Zanetti, jornalista






