Em conversa com Lula, Xi Jinping declara apoio à soberania brasileira
O cancelamento da reunião entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, não é apenas um contratempo diplomático: é a confirmação de que a política comercial de Donald Trump em relação ao Brasil tem viés abertamente político. A decisão, tomada após declarações públicas do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra o encontro, expõe a interferência direta de atores da extrema direita brasileira na política externa de outro país, com prejuízos concretos para a economia nacional.
Segundo Haddad, a reunião — que teria como pauta as tarifas impostas aos produtos brasileiros — foi desmarcada por e-mail, sob o pretexto de “falta de agenda”, mas sem nova data prevista. O ministro atribui a decisão à “militância diplomática das forças de extrema direita”, citando nominalmente Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo, que teriam atuado junto a autoridades americanas para inviabilizar o diálogo. Ambos negam, mas, nos bastidores, interlocutores confirmam que o gesto foi calculado para enviar um recado político: Trump não pretende negociar diretamente com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
O episódio remete a um padrão histórico: a sabotagem interna de interesses nacionais com alinhamento a potências estrangeiras. O caso mais emblemático ocorreu em 1964, quando o golpe militar brasileiro recebeu apoio direto de Washington, conforme registrado em documentos desclassificados do Departamento de Estado dos EUA. Hoje, a tática é menos militar e mais diplomática — mas não menos eficaz em minar a soberania do país. Como afirmou o cientista político Moniz Bandeira em A Segunda Guerra Fria (Civilização Brasileira, 2013), “as alianças de elites nacionais com potências estrangeiras sempre foram um vetor de erosão da autonomia política e econômica de países periféricos”.
O ex-secretário de Comércio, Welber Barral, lamentou a ruptura do canal de diálogo, lembrando que Bessent é um dos poucos assessores capazes de influenciar Trump em temas de comércio. Para Barral, a decisão é mais um sinal de que o Brasil não está na lista de prioridades da Casa Branca, que hoje concentra esforços no México, China e Canadá — nações diretamente atreladas ao comércio norte-americano pelo acordo USMCA.
O contraste é evidente: enquanto o Brasil enfrenta tarifas de 50% sobre produtos estratégicos, a China — que na teoria é o principal adversário geopolítico dos EUA — acaba de receber mais 90 dias de trégua na guerra comercial. A disparidade evidencia que a política de Trump não é movida apenas por interesses econômicos, mas por cálculos geopolíticos e ideológicos.
Internamente, o governo Lula tenta reagir. Entre as medidas estudadas estão linhas de crédito emergenciais, adiamento de impostos, manutenção de empregos e compras governamentais de produtos agrícolas — um pacote que remete às ações anticíclicas da crise de 2008, quando países adotaram políticas de socorro para evitar recessões prolongadas.
Mas a diferença crucial, agora, é que parte da crise é fabricada dentro de casa. E, como demonstra a história, quando setores políticos brasileiros trabalham para enfraquecer o país em nome de alianças externas, o preço é pago não apenas em pontos percentuais do PIB, mas na própria capacidade de o Brasil se posicionar como ator soberano no sistema internacional.




