Quando partem os amigos

(Foto: Reprodução/Instagram)

Os amigos estão partindo.
Todos muito contra a vontade – e nos deixando nocauteados
Como se fosse uma guerra quando as mortes chegam em ondas e as trincheiras brancas são os hospitais.
Nossos corpos ameaçados pelo vírus resistem e, entre incertezas, nunca sabemos até quando.
Para quem, como eu, vê o corpo como expressão máxima da divindade e milagre prodigioso da natureza, sempre há a esperança da vitória da vida.
Mesmo com o corpo extenuado e já tendo ultrapassado o limite do que antigamente era tido como o marco da finitude,
Sempre se quer prosseguir
Ou porque se é mau matado, mau curado ou ressuscitado.
O irmão corpo, como o chamava São Francisco, é um cavalo de guerra a morder sempre o bridão.
Riscado de cicatrizes,
São suas únicas medalhas e condecorações,
Também há o puxar do arado do cotidiano.
No mourejar, sem brilho nem glória alguma que não seja a sobrevivência.
Nos tempos atuais já é muito.
Cervantes.
Um tanto de Dom Quixote.
Um tanto de Rocinante.
Entre os gigantes dos moinhos de vento nos campos de girassóis.
Enfrentados os golpes dos cavaleiros.
Com o elmo e o escudo de lata.
Andamos e cavalgamos juntos.
Em corpo e espírito.
Nos imaginando em delírio e ilusão.
Bucéfalo e Alexandre
A mudar o mundo.
Que em nada mudou.
Talvez nossas visões apenas.
E como nos versos de Vinicius.
Navegamos pelos mares afora
Vimos nascer o sol
Vimos morrer a aurora.
Nos campos os rastros se foram
E no mar as ondas apagaram as memórias.
Como naufrágios.
Sem histórias
Do que não se poderia perder.
Nunca
Entre crepúsculos e alvoreceres
Das rubras alcovas que existiram
E manhãs de demencial esperança
Ernesto Sábato.
A solidão sempre é crescente
Rompida quando se vem ao mundo
Pelo abandono e expulsão indesejada
Do paraíso do ventre materno
Essa catedral para onde nunca se voltará
Protesto
Os amigos estão partindo
E teremos que nos bastar
Sem eles
Acreditando inutilmente que a vida
Ou depois dela haverá
O mito da arte do encontro
Improvável.
Então é assim.
Sem solução
Com o abandono desse casulo
O corpo material que provisoriamente
Habitamos onde nada é definitivo
Nem esse conjunto de angústias e procuras
De incertezas e medos
Que nos assombram
E dos pesadelos e sonhos
E as incompletudes que nos transportam
Por caminhos insondáveis até a pira
Das chamas que nos aguardam
No xadrez implacável
Que nos leva e levará
Como os amigos que estão partindo

(Fonte – Blog do Zé Beto)

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