Oásis de águas cristalinas no Pantanal ainda está sendo descoberto pelo turismo

kleverton-velasques

Após os incêndios de 2020, o Pantanal ficou na cabeça das pessoas, pois a tragédia impactou o mundo. Até então, as exuberâncias do bioma eram conhecidas em certo grau, mas o que as chamas de dois anos atrás causaram, além de tristeza, foi a vontade de explorar um Pantanal que está disponível e do qual ainda pouco se sabe. 

Pelo menos em termos de ecoturismo, que é reconhecido como ferramenta para garantir medidas sustentáveis e proteção ambiental.  

Entre as “descobertas” turísticas estão as águas cristalinas do Paraguai-Mirim. A transparência permite até fazer mergulho entre peixes e arraias.

O assunto tratado aqui é parte integrante de uma série que o Correio do Estado começou a publicar sobre o Pantanal no dia 4 de julho. Este trabalho corresponde a uma composição única, que vai concentrar e contextualizar outras reportagens que o jornal tem publicado desde 2020 para mostrar qual é a realidade atual do bioma e as perspectivas para o futuro.

Esse afluente difere de tudo que ocorre no Rio Paraguai, que tem água turva e misteriosa, sem praticamente mostrar nada do que há em seu mundo subaquático, em trechos que a profundidade pode chegar a 60 metros. 

O Paraguai-Mirim pode ser acessado tanto rio abaixo, logo depois de Ladário, como rio acima, antes de chegar na comunidade Barra do São Lourenço, que fica próximo à divisa de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso.

Em qualquer um desses acessos, logo que a embarcação chega a esse rio a diferença de turbidez da água é enorme. 

Apesar dessa condição, muito favorável para a visitação, o Paraguai-Mirim não é nem de longe tão conhecido como as águas de Bonito (Rio Sucuri, por exemplo), destino referência em ecoturismo no Brasil e no mundo.  

Atualmente, só existe uma agência em Corumbá que promove passeios exclusivos para visitar a região, incluso o mergulho com equipamento. Entre outubro de 2021 e junho deste ano, em torno de 40 pessoas foram diretamente para visitar o local, entre elas, oito alemães que passavam pela Capital do Pantanal.

Virgínia Ly Lito Pinto, dona de uma agência que trabalha com passeio dedicado ao Rio Paraguai-Mirim, explica que há fatores que ainda dificultam uma visitação maior.  

Diferentemente de Bonito, onde os atrativos estão mais próximos da cidade, chegar às águas cristalinas do Pantanal exige uma viagem mais longa. É possível ir e voltar da região em um dia, mas o trajeto, incluindo o período para mergulhar, dura mais de 12 horas.

“Eu trabalho na região desde 2018, e a gente fazia batismo do curso de mergulho por lá. Em 2020, a gente viu uma oportunidade, mas veio a pandemia e só conseguimos retomar no ano passado. É tudo muito lindo, mas, para a gente fazer um turismo responsável, não é local de grandes grupos. No máximo são oito pessoas. Temos que trabalhar para preservar. Além disso, não é barato”, comentou a empresária.  

Um passeio até o Paraguai-Mirim chega a custar R$ 750 por pessoa, quando é feito em um dia. Na necessidade de pouso, o valor quase dobra e a estrutura para receber o turista é simples.

Esse afluente surge na região da Serra do Amolar, área com vegetação e vida selvagem muito preservadas, e corta um caminho até Corumbá e Ladário, desaguando em local conhecido como Rabicho, onde a Marinha tem uma unidade de treinamento. 

Pelo fato de a navegação ainda ser menos intensa do que no Rio Paraguai, muitos trechos do Paraguai-Mirim ficam cobertos de camalotes e, em outros, a navegação é quase inexistente. Apesar disso, há trechos em que a profundidade é maior do que cinco metros.

A organização não governamental (ONG) Ecoa, que atua com comunidades ribeirinhas, identificou cerca de 38 famílias que vivem na região.  

A grande maioria dessas pessoas (80%) são pescadores e coletores de iscas vivas, que acabam sendo vendidas a turistas que fazem pesca esportiva e passam pelo trecho em barcos-hotéis que partem de Corumbá até a região da Baía da Gaíva, na Serra do Amolar.  

“No total, são 216 pessoas, moradoras fixas, espalhadas por um vasto território nas margens do Rio Paraguai, do Paraguai-Mirim e seus corixos. A média de filhos por famílias é de 5,4”, identificou estudo da ONG Ecoa.

Também existe projeto em andamento para estruturar turismo de base comunitária em alguns trechos dessa comunidade, ao ser criado um roteiro turístico.  

O Sebrae-MS e a Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur-MS) têm parceria para auxiliar moradores interessados em empreender, bem como oferecer suporte para propriedades que pensam em propostas de negócios. Essa ação é para médio prazo.

ESTRATÉGIA DE GUERRA

Se atualmente as águas cristalinas do Paraguai-Mirim oferecem potencial turístico, elas foram uma “arma” estratégica para o Brasil na época da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), conhecida também como Guerra do Paraguai.  

O canal, há dois séculos mais conhecido pelos indígenas que moravam na região, serviu para tropa brasileira que havia saído de Cuiabá surpreender os paraguaios, que haviam tomado o Porto de Corumbá.

A chamada retomada de Corumbá, até hoje celebrada na Capital do Pantanal com evento militar, ocorreu em 13 de junho de 1867, encabeçada por Antônio Maria Coelho, e foi fundamental para acabar com três anos de ocupação paraguaia na região.  

Para surpreender as forças armadas paraguaias, a tropa não surgiu na curva do Rio Paraguai, imortalizada na música “Chalana” de Mário Zan, e que está logo na frente do Porto Geral. Foi cortando caminho no Paraguai-Mirim que essa estratégia militar ocorreu.

Apesar desse fato histórico representativo, que gerou raízes para Corumbá e Ladário serem o que são hoje e parte do território brasileiro, para quem se aventura na região ainda não se conta muito sobre o assunto.  

A beleza natural e surpreendente de ver barcos parecendo flutuar e peixes nadarem como se estivessem no ar gera mais atenção e não precisa de explicação: é só estar lá para presenciar tudo isso.

Facebook
Twitter
WhatsApp

Leia Também