O crime compensa? Sim!

Até quando o cidadão de bem será obrigado a carregar o Brasil nas costas enquanto assiste, de mãos atadas, ao deboche escancarado da impunidade? A indignação do brasileiro com a Justiça não é mero pessimismo; é revolta legítima, alimentada por processos que se arrastam por décadas e pela certeza humilhante de que a lei só aperta o calo de quem não tem dinheiro. No Brasil, a impunidade dos colarinhos brancos virou uma humilhante realidade estatística e cotidiana.

Um tapa na cara da sociedade. O levantamento revela o vergonhoso “funil da impunidade” no STF: de 1.766 inquéritos abertos contra políticos com foro privilegiado, apenas 92 viraram denúncia — o que significa que 18 em cada 19 políticos sequer chegam a virar réus! No final desse esforço judicial, restaram míseras 28 condenações definitivas. Um índice ridículo de 5% de eficácia.

O foro privilegiado é uma aberração histórica. Desenhado sob o pretexto de proteger funções públicas, ele se transformou em um escudo de proteção para blindar criminosos de colarinho branco por meio de manobras burocráticas.

O sistema joga a favor do réu poderoso através de três artifícios revoltantes: a prescrição (o crime “vence” devido à lentidão proposital da Justiça); o “vaivém” de competência (uma dança das cadeiras jurídica que zera os processos quando o político muda de cargo); e a ausência de prazos rígidos para que os ministros julguem os casos.

Enquanto os poderosos celebram, o Brasil afunda no cenário global, amargando a vexatória 107ª posição no Índice de Percepção da Corrupção, atrás de países em guerra. Somos roubados diariamente por desvios bilionários na previdência, verbas públicas pulverizadas em emendas parlamentares sem qualquer transparência e, para piorar, assistimos à infiltração do crime organizado no próprio Estado.

Em Mato Grosso do Sul, o deboche se repete fielmente. O Gaeco realiza operações importantes, a polícia algema os suspeitos, mas, em poucos dias, os acusados estão de volta às suas mansões. Sob a justificativa técnica de que crimes financeiros “não envolvem violência física”, a Justiça concede Habeas Corpus em série. Em Campo Grande, os exemplos são escandalosos:

  • A Operação “Buraco Sem Fim”.
  • Os desvios milionários da COSIP.
  • As fraudes monstruosas da Saúde.

O resultado? Estão todos soltos. Enquanto os mentores desses saques desfrutam do bom e do melhor, a conta é cobrada no sangue e no suor da população. É o paciente que morre na fila do hospital sem remédios, famílias sem moradias e o trabalhador assaltado na rua escura.

No Brasil, a corda só arrebenta do lado mais fraco. Enquanto as regras do jogo continuarem premiando a prescrição e a lentidão, a resposta continuará sendo um doloroso e revoltante sim: para quem tem poder, o crime compensa muito.

Por Antonio Ueno — Cientista Político

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