Memórias de um Poeta: Bosco Martins detalha relançamento ampliado de “Diálogos do Ócio” e bastidores com Manoel de Barros

Campo Grande (MS) – O jornalismo cultural e a preservação da rica literatura sul-mato-grossense ganharam um capítulo especial nesta semana. Em uma entrevista ao Jornal da Top, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, o prestigiado jornalista, escritor e colunista Bosco Martins relembrou bastidores inéditos de sua convivência de mais de três décadas com o poeta Manoel de Barros e anunciou em primeira mão os detalhes da nova edição de sua aclamada obra, Diálogos do Ócio.

Uma Vida Entregue ao Jornalismo

Antes de adentrar no universo manuelino, Bosco Martins compartilhou um pouco de sua própria trajetória, marcada por um pioneirismo indelével na comunicação do Estado. Brincando que “nasceu com um microfone na mão”, ele iniciou sua carreira ainda menor de idade em Jaboticabal (SP), acumulando tempo de serviço suficiente para aposentar-se pelo INSS aos 55 anos de trabalho.

Durante a entrevista, relembrou com nostalgia a década de 1990, época em que atuava como repórter na TV Morena (afiliada Rede Globo). Bosco foi o primeiro jornalista a colocar a tradicional festa da Fogueira de Jateí em rede nacional, quando a atração ainda media modestos 40 metros de altura. Sua vasta experiência profissional inclui passagens marcantes pela direção da TV Educativa do Estado (Fertel), consolidando-o como um dos grandes cronistas do cotidiano sul-mato-grossense.

O Relançamento de “Diálogos do Ócio”

O principal mote do encontro foi a iminente reedição de Diálogos do Ócio pela Editora da UFMS. Lançada originalmente em 2022, a obra ganhou corpo e agora se transformou em um robusto volume de mais de 400 páginas.

“É um tijolaço de 400 e poucas páginas para a pouca leitura que temos hoje infelizmente no Brasil”, comentou Bosco, ponderando, contudo, que percebe um movimento crescente de interesse em feiras literárias nacionais.

Segundo o autor, a nova versão traz complementações sugeridas pelo amigo e prefaciador Zamilton Ribeiro (atualmente com 90 anos), que sentiu falta de passagens memoráveis que haviam sido limadas no primeiro processo de edição — como o impacto e as reações do poeta ao conhecer a atriz Bruna Lombardi, por quem nutria profunda admiração. O livro expandido também reúne flashes de lançamentos bem-sucedidos em eixos como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, além de entrevistas concedidas a veículos como a Folha de S.Paulo e o Correio do Estado, que ajudam a decifrar a complexa e tímida psique do escritor.

Intimidade e Descoberta de Manoel de Barros

A ligação entre Bosco e Manoel de Barros remonta à juventude do jornalista, quando este chegou ao Mato Grosso do Sul e tornou-se amigo íntimo de João Venceslau de Barros, filho do poeta. Naquela vibrante atmosfera dos anos 1980, frequentada também por Almir Sater e Paulo Simões, Bosco conheceu o poeta já sexagenário.

O jornalista relembrou o divisor de águas que colocou Manoel no panorama cultural mundial: a vinda da prestigiada revista espanhola El Paseante. A equipe internacional descobriu o gênio literário escondido no Centro-Oeste, realizando uma histórica matéria de capa no antigo escritório de gado do poeta, localizado na Rua Rui Barbosa. Foi a partir desse reconhecimento externo que a grande imprensa do Sudeste e o restante do Brasil finalmente “descobriram” o talento de Manoel.

Bastidores Hilários e Afeto Literário

Com exclusividade, Bosco compartilhou nuances divertidas da personalidade do poeta:

  • Aversão a autoridades e formalidades: Manoel detestava agendas políticas. O jornalista relembrou o quão difícil foi convencer o amigo a receber o então prefeito de Campo Grande, Nelsinho Trad, para uma homenagem pública. Posteriormente, contudo, os dois acabaram desenvolvendo uma carinhosa amizade.
  • A cumplicidade com Jonir Figueiredo: O falecido artista plástico Jonir Figueiredo era um dos poucos capazes de quebrar o casulo de Manoel. Quando o poeta sentia saudades do Rio de Janeiro, pedia a presença do “espalhafatoso” Jonir para se divertir e dar risadas. Jonir, inclusive, planejava assinar o cenário de uma peça teatral adaptada do livro de Bosco, projeto tragicamente interrompido com o falecimento do artista e do diretor Roberto Figueiredo.

Relíquias Fotográficas e o “Cofre Nadiúndio”

Durante o programa de rádio, o autor exibiu uma fotografia antológica capturada pelo icônico repórter fotográfico Roberto Higa. A imagem retrata Manoel de Barros sem camisa, mimetizando uma famosa pose de um quadro de Pablo Picasso. O registro possui um valor afetivo incomensurável: foi o primeiro trabalho de campo realizado por Higa logo após recuperar-se de um severo Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Encerrando a entrevista em tom poético, Bosco revelou um texto inédito de Manoel de Barros presente na nova edição do livro. Trata-se de manuscritos guardados no que o poeta apelidava de “Cofre Nadiúndio” — um espaço onde depositava riquezas invisíveis aos olhos gananciosos do capital. No fragmento lido por Bosco, Manoel escreve:

“Não precisei ler São Paulo, Santo Agostinho, São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem Francisco de Assis para chegar a Deus. As formigas me mostraram Ele. Eu tenho doutorado em formigas.”

Para os leitores interessados em mergulhar profundamente nesta atmosfera, o autor lembrou que a histórica residência onde as obras eram gestadas funciona hoje como o Museu Casa-Quintal Manoel de Barros, localizada na Rua Piratininga, nº 363, no Jardim dos Estados, aberta a visitações agendadas.

Resumo Técnico da Trajetória do Entrevistado (Para Controle de Arquivo)

  • Nome: Bosco Martins (João Bosco de Castro Martins).
  • Origem e Início: Natural e iniciou carreira em Jaboticabal (SP), atuando em rádio (antiga PRG4) e jornais locais no início da década de 1970.
  • Televisão e Rede Nacional: Atuou como repórter de rede na TV Morena (década de 90), destacando manifestações culturais de MS para o Brasil.
  • Gestão Pública: Exerceu o cargo de diretor da TV Educativa do Estado (Fertel) durante o governo de Marcelo Miranda.
  • Atuação Literária: Amigo pessoal da família de Manoel de Barros por mais de 30 anos, biógrafo, cronista e autor do livro Diálogos do Ócio.
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