Todo dia 20 de setembro, o Rio Grande do Sul comemora sua Data Magna, também conhecida como Dia do Gaúcho, feriado estadual que celebra o início da Revolução Farroupilha em 1835. A data é marca oficial de identidade, história e tradições culturais gaúchas — e sua importância extrapola os limites do estado, alcançando regiões como o Oeste do Paraná.
O que é a Data Magna e por que 20 de setembro é feriado
Em 20 de setembro de 1835, começou a Revolução Farroupilha (ou Guerra dos Farrapos), movimento que durou aproximadamente dez anos e que foi um dos mais significativos da história gaúcha nas lutas contra o Império do Brasil, pelos ideais de autonomia, federalismo e liberdade.
O feriado estadual que oficializa essa data foi instituído através do Decreto nº 36.180, de 1995, que declara o dia 20 de setembro como Data Magna do Estado do Rio Grande do Sul.
Também há uma lei mais antiga, a Lei nº 2.072, de 17 de julho de 1953, que “declara feriado estadual o dia 20 de setembro.”
Semana Farroupilha: celebrações e tradições
A Semana Farroupilha abrange tradicionalmente os dias que antecedem o feriado de 20 de setembro, com manifestações culturais, desfiles, acampamentos, música, dança, comidas típicas, eventos em Centros de Tradição Gaúcha (CTGs).
É um momento de forte reforço da identidade gaúcha, onde a população participa não apenas como espectadores, mas frequentemente como atores — dançarinos, gaiteiros, prendas, campeiros, oradores.
O Hino Rio-Grandense, também chamado de Hino Farroupilha, é símbolo oficial do Estado do Rio Grande do Sul. Letra de Francisco Pinto da Fontoura (também conhecido como “Chiquinho da Vovó”), música de Joaquim José Mendanha, harmonização de Antônio Corte Real.
Foi oficializado pela Lei Estadual nº 5.213, de 5 de janeiro de 1966, que também definiu os símbolos oficiais do estado.
Sua letra exalta o 20 de setembro como “precursor da liberdade” e invoca valores como coragem, constância, virtude, sugerindo que a liberdade exige força, brio e caráter.
Presença gaúcha
Os primeiros migrantes chegaram ao final do século 18 e se estabeleceram na porção sul do estado, onde hoje é Mato Grosso do Sul. Foi, sobretudo, na década de 1970 que houve a maior onda de migrantes com destino à região centro-sul do estado para trabalhar nas lavouras de soja. Na verdade, começaram plantando arroz na região do médio e baixo Araguaia. Esse povoamento resultou na fundação de cidades como Água Boa, Canarana e Querência, principalmente. Depois, continuaram avançando para o Médio Norte, Norte e Oeste, sempre deixando um rastro de desenvolvimento.
Junto, o gaúcho foi cativando adeptos a sua cultura. Trouxe o chimarrão, churrasco, danças e sua forma peculiar de se divertir com jogos e festas. Também agregou costumes locais. Emprestou e recebeu cultura. O resultado disso poderá ser conferido entre os dias 19 e 23 de julho no município de Querência, que recebe a 14ª edição do Festival Nacional de Arte e Tradição (Fenart), além do 18º Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e a 8ª edição dos Jogos Tradicionalistas. A festa é gaúcha, mas é para mato-grossense ver e participar.
O Fenart inclui apresentações e a disputa de um conjunto de provas de danças, canto e declamações típicas da cultura gaúcha. Além disso, haverá o Rodeio Crioulo Nacional de Campeões, que consiste em provas campeiras de rede e laços, bem como os Jogos Tradicionalistas, onde ocorre a disputa de um conjunto de modalidades esportivas como bocha, bolão, tava, tetarfe, truco cego, truco de amostra, bocha campeira e bocha 48.
Essa é a primeira vez que Mato Grosso sedia o evento nacional que deve reunir cerca de 10 mil pessoas, trazendo retornos positivos para a economia e turismo da região do Vale do Araguaia, avaliam os diretores da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha e do Movimento Tradicionalista Gaúcho de Mato Grosso, que promovem o evento.
As competições contam com a presença de equipes de vários estados representando vários CTGs que se classificam em festivais regionais por um período de dois anos e finalizam a disputa no festival nacional. As equipes premiadas recebem troféus e medalhas.
Os eventos tradicionais gaúchos foram criados para difundir e manter viva a cultura sulista por meio de danças típicas com a invernada artística e as danças de salão, e ainda a culinária, indumentária ou traje típico (a pilcha) e a história. O festival também busca fortalecer a identidade de um povo, cultivando suas tradições e transmitir aos mais jovens valores como educação e disciplina.
UM POUCO DE HISTÓRIA
O sul de Mato Grosso que, na década de 1970, seria dividido dando origem a Mato Grosso do Sul, desde o fim do século 18 viu um aumento importante no fluxo de migrantes, sobretudo gaúchos. Entre eles, o lendário Thomaz Laranjeira. Empreendedor nato, em fins de 1882, Thomaz arrendou uma extensa área de terras devolutas situadas na faixa de fronteira com o Paraguai, que mais tarde deu origem a Ponta Porã.
A empreitada resultou na criação da empresa Mate Laranjeira, que teve o monopólio da produção ervateira até as primeiras décadas do século 20. Além da erva-mate, uma parte importante dos numerosos migrantes que vieram para o sul de Mato Grosso até a década de 1930 se dedicou também à criação de gado e construíram um “universo paralelo” à Companhia Mate, muitos deles, assim como ela, vinculados ao mercado platino, igualmente usuários do rio Paraguai.
É fato que a história gaúcha mais recente em Mato Grosso, por conta do boom da soja, é a mais contada, porém, não é a única. É preciso analisar a história como um todo, desde o Movimento Federalista no Sul do Brasil, passando pela Política Expansionista do Governo Getúlio Vargas e pelos programas oficiais que concederam terras e recursos para os projetos de colonização na década de 1970.
É justo afirmar que a história gaúcha em Mato Grosso não se limita ao avanço dos campos de soja, há cerca de 50 anos. É bem mais antiga, registrando cerca de 200 anos de convívio que moldou um novo Estado, uma nova geopolítica. Uma história que vai demorar muito para terminar. Talvez, nunca termine!





