Lançamentos da Editora UFMS podem ser acessados no Repositório

Os três últimos livros adicionados pela Editora UFMS ao Repositório trazem assuntos diversos. As obras abordam: um olhar transdisciplinar sobre o que é ser índio sendo surdo; aprendizagens e saberes mobilizados pela colaboração entre o “Grupo de Práticas Colaborativas em Educação Matemática nos anos iniciais” e licenciados de Pedagogia do campus de Naviraí; e escritos acadêmicos que orbitam em torno do instrumento musical violoncelo, sob diferentes pontos de vista. Os livros foram contemplados no edital Publica UFMS 2020.

O que é ser índio sendo surdo? um olhar transdisciplinar

Michelle Sousa Mussato

A inspiração para o livro veio de indagações da autora desde o ingresso ao universo das línguas de sinais, em 2006. “No período de minha formação acadêmica, as legislações que legitimaram a Libras como língua oficial no país fomentavam mudanças no cenário socioeducacional, abrindo espaço para o reconhecimento identitário cultural e linguístico da comunidade surda”, comenta.

Ao iniciar o trabalho como intérprete nesse mesmo ano, Michelle se deparou com surdos de etnia terena. “Traziam consigo uma forma única, distinta, de sinalizar e apreender o mundo com aspectos culturais outros. Enfrentamos muitas adversidades, pois o embate linguístico cultural no cenário escolar, sobretudo na instituição urbana, impunha um processo educacional embasado na hegemonia da oralidade e seus métodos de ensino aprendizagem. Métodos esses arraigados em concepções anteriores acerca da surdez e de suas implicações sociais. Foi então que decidi tornar essa situação uma pesquisa científica durante meu período de mestrado, sob orientação da professora Claudete Cameschi de Souza, entre 2015 e 2017, aqui em Três Lagoas”, conta.

Conforme a autora o objetivo foi problematizar o processo de constituição identitária dos surdos de etnia terena por meio de narrativas de si e do outro, pela subjetividade do sujeito em descrever como se vê, como vê o outro (seus pares e o branco) e como acredita que o outro o vê (seus pares e o branco), sendo índio e surdo. “Neste livro, apresento recortes enunciativos das entrevistas concedidas por dois índios surdos, em que enunciam e denunciam as formas de estereotipação que os perpassam, que constituem suas formas de serem sujeitos nos múltiplos territórios em que transitam, em que são discursivizados”, aponta.

A pesquisadora explica que “o olhar transdisciplinar não advém apenas da necessidade de um escopo teórico plural, mais amplo, mas da implicação própria de observar com sensibilidade a fronteira constitutiva de ser surdo sendo um índio em uma comunidade que requer sua afirmação identitária por meio da língua terena, língua essa que habita toda a família dos sujeitos entrevistados e que se sente incômoda ao ver seus filhos aprenderem a se presentificar no mundo por meio do acesso à Libras, que tem como suporte intrínseco a língua portuguesa escrita, sem que a língua de sinais que emergiu no seio familiar, da apreensão da cultura terena de seu povo tenha espaço e ou reconhecimento na instituição escolar. Provoca, assim, conflitos no sentimento de pertencimento de toda a família, sobretudo nos surdos terena que se sentem ignorantes, incapacitados em todos os lugares em que transitam, se inscrevem. Espero que o leitor aprecie as discussões que trago no livro e nos ajude a contribuir com reflexões para um cenário socioeducacional e cultural mais aberto ao outro, com sua alteridade, heterogeneidade, sua singularidade”.

Michelle Sousa Mussato é graduada em Letras – Português/Espanhol pela UFMS campus de Aquidauana, e mestre em Letras pela UFMS campus de Três Lagoas. Atualmente é doutoranda no mesmo programa de pós-graduação e atua também como tradutora/intérprete de Língua Brasileira de Sinais da UFMS no campus.

Licenciandos em pedagogia e o “País das maravilhas da matemática”: aprendizagens e saberes mobilizados pela colaboração

Ana Carolina Faustino, Klinger Teodoro Ciríaco e Marcielli de Lemos Cremoneze

O livro traz experiências e resultados de ações realizadas no âmbito do “Grupo de Práticas Colaborativas em Educação Matemática nos anos iniciais” (GPCEMai/UFMS) e em especial do estudo realizado para a dissertação de mestrado de Marcielli de Lemos Cremoneze, sob orientação do professor Klinger Teodoro Ciríaco. A pesquisa foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática do Instituto de Matemática da UFMS.

“O GPCEMai/UFMS foi constituído em 2013 por mim e por professoras que ensinavam Matemática da rede municipal da Naviraí com o objetivo de reunirmos e também promovermos estudos relacionados à docência na área. Foi um espaço de produção de conhecimento, de colaboração, de imersão no processo de dar ciência ao fazer docente. Além das professoras da Educação Básica, participaram também estudantes da licenciatura em Pedagogia do campus e, como professores formadores, eu e a professora Ana Carolina Faustino. O grupo teve vigência até 2018 e por meio dele foram produzidas duas dissertações de mestrado e minha tese de doutorado. Entre as dissertações, o trabalho da Marcielli”, explicou Klinger.

“A minha pesquisa foi desenvolvida com quatro estudantes que estavam entre o 5º e 7º semestre da licenciatura em Pedagogia do campus de Naviraí. O GPCEMai/UFMS funcionou como um espaço de discussão e problematização matemática, onde esses futuros professores acabaram adquirindo conhecimentos pré-profissionais ligados à docência em Educação Matemática”, explica Marcielli.

“O livro traz grande parte dessa pesquisa e também outras ações que desenvolvemos no contexto do grupo, tentando compreender como o GPCEMai/UFMS contribui para a mobilização e produção de saberes da docência ainda na formação inicial”, apontou Ana Carolina Faustino.

“Entendendo o grupo colaborativo como um dos eixos catalisadores de aprendizagem profissional e pré-profissional, essa é uma alternativa de formação permanente de professores em diferentes níveis, seja na formação inicial ou continuada. Outro ponto importante é que embora a formação inicial de professores apresente limites, quando comparamos disciplinas específicas, de metodologias de ensino, como é o caso da metodologia de ensino de matemática, a Universidade pode atuar em outras frentes, tendo em vista o tripé universitário. E foi o que aconteceu no GPCEMai/UFMS, nós acabamos atuando com frentes de extensão e de pesquisa, a partir do viés da extensão certificamos alunos e professores que integraram o grupo e no movimento reflexivo das pesquisas de mestrado, doutorado e trabalhos de conclusão de curso acabamos contribuindo também para fortalecer a vertente do professor investigativo, do professor reflexivo”, lembrou o professor Klinger.

Ana Carolina Faustino é professora da UFMS em Naviraí, licenciada em Pedagogia pela UFSCar, mestre em Educação na linha de pesquisa em Educação e Ciências em Matemática pela UFSCar e doutora em Educação Matemática pela Unesp de Rio Claro (SP).

Klinger Teodoro Ciríaco é professor da UFSCar, atuou na graduação na UFMS de 2013 a 2019 e continua na Pós-Graduação em Educação Matemática da UFMS. É licenciado em Pedagogia pela UFMS campus de Três Lagoas, mestre e doutor em Educação pela Unesp de Presidente Prudente (SP) e pós-doutor em Psicologia da Educação Matemática pela Unesp de Bauru (SP).

Marcielli de Lemos Cremoneze é licenciada em Pedagogia pela UFMS campus de Naviraí e mestre em Educação Matemática pela UFMS.

Violoncelo, um compêndio brasileiro

William Teixeira da Silva

O livro traz artigos de pesquisadores brasileiros e internacionais e entrevistas com pessoas que se tornaram referência no assunto. Segundo o professor do curso de Música da UFMS e organizador da obra, William Teixeira da Silva, a ideia de desenvolver o livro surgiu no início de 2020. “Embora já fosse um desejo antigo, a reunião desse conteúdo se tornou um plano extremamente urgente à medida que, adentrado o período de pandemia, diversas disciplinas do curso de Música tiveram de ser adaptadas para o modo remoto. Como a interação aluno-professor é muito intensa e direta, especialmente nas disciplinas práticas, houve certa dificuldade na adaptação. Além disso, a bibliografia disponível em língua portuguesa para todas as práticas instrumentais ainda é bastante reduzida”, pontuou.

Assim, no primeiro semestre do ano passado o professor entrou em contato com colegas de outras universidades, que também sentiram falta de materiais similares, para que pudessem compor o livro “Violoncelo, um compêndio brasileiro”. A apresentação é feita pelos professores Cristian de Paula Brandão da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela professora Kalyne Teles Valente Brandão, do Instituto Estadual Carlos Gomes, também do Pará. Há capítulos inéditos de autoria do professor William da UFMS; do professor André Luis Michelleti da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto; do professor Fábio Soren Presgrave da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do professor Hugo Pilger da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).

“Trazemos também duas traduções. Uma é de um artigo inédito de Marc Vanscheeuwijck, professor da Universidade do Oregon (EUA), que conheci em congressos e que atualmente é o maior especialista em história do violoncelo. Esse capítulo está prestes a ser lançado também em língua inglesa e é o texto mais completo que existe na atualidade a respeito da história do desenvolvimento do instrumento violoncelo. E a outra tradução é de um capítulo de um compositor do século 20, o alemão Bernd Alois Zimmermann, que foi objeto da minha tese de doutorado. Essa tradução em que ele narra a respeito da importância do instrumento dentro da música contemporânea foi traduzida por mim e está sendo publicada com autorização da Editora Schott, uma das mais importantes editoras musicais do mundo”, aponta.

Além dos artigos de pesquisa, o livro também traz entrevistas com grandes referências da área. “Algumas são traduzidas do inglês com autorização dos autores e outras realizadas por mim com importantes nomes do violoncelo brasileiro. Por serem de uma época em que não se produzia tanta pesquisa em torno da performance, têm todo o seu conhecimento veiculado apenas de maneira oral, portanto, registrar por escrito esses relatos, creio que seja importante para a sedimentação desta área de pesquisa e também para a constituição de um referencial bibliográfico em torno do violoncelo”, finaliza.

William Teixeira da Silva é bacharel em Música com habilitação em violoncelo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP); especialista em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação “Andrew Jumper”; mestre em Música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e doutor em Música pela Universidade de São Paulo (USP).

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Texto: Ariane Comineti – fotos: cedidas pelos autoresWhatsAppFacebookMessengerTwitterCompartilhar

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