“Cita-lo pra Nós” fala sobre saúde mental por meio da dança

Lucas Miralles produz e dirige projeto que reflete sobre o uso de medicamentos antidepressivos, seus benefícios e reflexões necessárias
Luan Saraiva

O citalopram é um dos fármacos pertencentes a classe de medicamentos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Ao lado da Fluoxetina e tantos outros, os antidepressivos – como são popularmente chamados – ocupam a segunda posição na lista de remédios mais vendidos contra desordens do sistema nervoso, ficando atrás apenas dos analgésicos no Brasil. O que faz todo sentido, pois a população brasileira foi reconhecida com o maior índice de depressão da América Latina, segundo dados de relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os dados são chocantes, porém pouco se fala sobre a saúde da mente, e é por isso que Lucas Miralles, com seu conhecimento técnico na área da dança, busca levantar as questões relacionadas ao uso de antidepressivos no projeto “Cita-lo pra Nós”.

“A bula de medicamentos é sempre complexa, mas quando destrinchada aborda assuntos nunca ditos, nunca pensados, assuntos que geram desconforto. O medicamento causa desconforto?”, questiona Lucas.

Enquanto produtor, figurinista e diretor do projeto, Lucas afirma: “a coreografia e a produção audiovisual levarão o público a entender um pouco mais sobre esse medicamento e as condições em que ele é administrado, assim como a reverberação de tudo isso no corpo e na mente”.

Trabalho foi contemplado pela Lei Aldir Blanc, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e Governo do Estado. Ele pode ser conferido na plataforma do Youtube canal: www.youtube.com/user/LsMiralles ou diretamente no link da bio do Instagram de @lucasmiralles a partir desta quinta-feira, 11 de junho, 21h de MS.

Intepretação baseada na experiência dos bailarinos

Com históricos distintos, mas, ao mesmo tempo, similares com relação ao uso de medicamentos do gênero, Gui Dantas e Thaysa Coin, intérpretes de “Cita-lo pra Nós”, usam suas experiências pessoais como inspiração para a interpretação da narrativa de Lucas.

Thaysa, por exemplo, que hoje não precisa mais tomar remédios, passou cerca de dez anos de sua vida escondendo a depressão. “Demorei muitos anos com depressão para começar a tomar remédio, acho que eu devia ter depressão desde os meus 13 anos mas fui conseguir de fato buscar ajuda com 23. Até então jurava que o que sentia era normal, e após uma semana com os remédios percebi a mudança na minha disposição, como se a vida tivesse cor novamente. Era como se eu não soubesse que a vida poderia ser sentida de outra forma”, diz ela.

Durante um período, a medicação foi sinônimo de alegria, mas conforme o tempo passava ela se sentia presa àquela pílula. “Hoje em dia eu não me sinto como uma pessoa com depressão, porém sei que tenho tendências a depressão por genética e pela minha história de vida, então tento viver um dia de cada vez me observando constantemente para caso perceber qualquer tipo de gatilho, eu possa controlar antes que fique algo mais grave”, pontua.

Com depressão desde os dez anos, Gui Dantas chegou
“ao fundo do poço” convivendo com a doença. Desenvolveu distúrbios alimentares, automutilação e chegou a tentar suicídio algumas vezes. A luz no fim do túnel, para Gui, foi o tratamento psiquiátrico.

“Foi quando retornei da clínica psiquiátrica que decidi me aplicar em meu tratamento, pois não conseguia mais viver daquele jeito e decidi dar uma chance de verdade. Vivo em tratamento há alguns anos e me sinto muito melhor. Me abri para tratamentos de vários tipos e fui buscando meu desenvolvimento pessoal e saúde completa”.

Felizmente, as crises dele chegam a ser quase inexistentes atualmente. “É legal saber que consigo lidar com tudo de uma maneira melhor. Hoje tenho esperança”, comemora Gui.

Demora em procurar ajuda

As histórias de Thaysa e Gui Dantas, intérpretes de “Cita-lo pra Nós”, tem um fato em comum: nas duas narrativas se nota uma demora em aceitar a necessidade de tratamento psiquiátrico para além do psicológico.

De acordo com Cristiele Rodrigues, psicóloga especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, é importante as pessoas se atentarem em alguns sinais que podem indicar sofrimento emocional e que valem procurar ajuda.

“Ao notar perda de interesse nas atividades, alteração no sono e apetite, fadiga, irritabilidade, angústia, ansiedade, e até alguns sintomas físicos são indicativos como taquicardia, problemas na pele e diarreia é importante procurar ajuda profissional, infelizmente a maioria procura quando a situação de sofrimento psíquico está desesperadora para o paciente, o que é compreensível porque ainda há muito preconceito e tabu relacionado ao acompanhamento psicológico”, informa a psicóloga.

Ainda de acordo com a profissional, é essencial entender que, por muitas vezes, tratar só as alterações neuroquímicas do cérebro não é suficiente. “O psicólogo vai lidar com as questões emocionais, tentar entender o que está acontecendo e os motivos, ajudar o paciente no enfrentamento e acolher as angústias. O psiquiatra atua no tratamento medicamentoso dos transtornos, uma vez que são alterações neuroquímicas cerebrais. Por isso é essencial a combinação do tratamento com os dois profissionais”, finaliza.

Serviço – Este trabalho foi contemplado pela Lei Aldir Blanc, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e Governo do Estado. Ele pode ser conferido na plataforma do Youtube canal: www.youtube.com/user/LsMiralles ou diretamente no link da bio do Instagram de @lucasmiralles a partir desta quinta-feira, 11 de junho, 21h de MS.

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