A 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) termina neste sábado, 27, após dias de debates que mostraram ao mundo quais são os desafios geopolíticos atuais. O encontro, segundo especialistas consultados pelo Terra, evidenciou a crise das instituições multilaterais, ainda que a ONU reivindique sua relevância no gerenciamento de temas coletivos.
De terça-feira, 23, até sexta-feira, 26, diversas autoridades discursaram no salão principal do evento e vários recados e sinalizações foram dados. Se de um lado houve afago de Donald Trump a Lula e apoio do Brasil e mais de 150 nações à criação do Estado da Palestina, do outro houve boicote a Israel, pedidos tímidos pelo fim da guerra entre Ucrânia x Rússia e ataques dos EUA à própria ONU.
“Podemos dizer que os discursos dos últimos dias reafirmam a perspectiva de mais longo prazo da crise da própria ONU e das instituições multilaterais como um todo. Esta crise tem se apresentado nas esferas decisórias e nas dinâmicas de poder global, e já vem se estendendo com mais força na última década”, avalia Clarissa Nascimento Forner, professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
“Apesar de ele utilizar o espaço das Nações Unidas para fazer uma aproximação com o presidente Lula, já se sabia que ele iria falar muito contra as Nações Unidas. Ele tem se posicionado contra, e daria continuidade a essa posição em sua fala”, disse Natalia Fingermann, professora do curso de Relações Internacionais da ESPM.
Antes de Trump, Lula foi o responsável por fazer o discurso de abertura da Assembleia e mandou vários recados ao presidente americano, ainda que não o tenha citado diretamente. O petista ressaltou a soberania do Brasil e chamou as tarifas e sanções de arbitrárias, além de qualificar como inaceitável a tentativa de interferência no Judiciário do Brasil.
A criação de um Estado palestino também foi um dos principais temas abordados na ONU. Ao lado de mais de 150 países que defenderam a criação do Estado palestino, Lula voltou a afirmar que aquilo que Israel está fazendo na Faixa de Gaza é um genocídio.
O discurso do presidente brasileiro reforçou a posição histórica do Brasil de defesa dos dois estados, Israel e Palestina. “Essa é uma posição do Brasil desde 1947 e Lula teve a coragem de usar a palavra genocídio para falar sobre a situação do conflito de Israel”, avaliou Fingermann.
Enquanto Lula e dezenas de outros chefes de Estado defenderam a soberania do povo palestino em um território independente de Israel, Trump se manifestou contrariamente.
Com Trump como principal apoiador, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discursou na sexta-feira, 26, e atacou o Irã e seu programa de armas nucleares. Durante o discurso, várias delegações deixaram a plateia, incluindo os representantes brasileiros.
Embora pareça haver certa estagnação sob o ponto de vista do gerenciamento de conflitos em Gaza e na Ucrânia, Clarissa Nascimento Forner ressalta que a ONU parece reivindicar sua relevância no gerenciamento dos grandes temas, como a questão ambiental e as dinâmicas de regulação do uso de IA.




