Um pedaço da Suíça que vive em Mato Grosso do Sul

A pele branca, os cabelos finos e longos e um português ainda um pouco misturado ao sotaque francês. Quem a conhece logo percebe que não se trata de uma brasileira, mas nove meses após sua chegada ao Brasil, o jeito tímido e o sorriso fácil de Emma Marthe Bochud, 17 anos, já revelam a empatia com o povo brasileiro. Ela é suíça, chegou ao Brasil no dia 7 de agosto do ano passado e às vésperas de retornar à Europa, diz que não quer ir embora e que Campo Grande agora é sua casa, onde tem família, amigos e uma rotina diária. Emma é mais uma das 22 estudantes intercambistas que vieram à Capital para sua primeira experiência com o país por meio da AFS (American Field Service), uma Ong (Organização Não Governamental) internacional que se preocupa em promover a paz mundial através da troca de cultura entre pessoas de diversos países do mundo.

“Eu decidi vir para o Brasil há pouco mais de um ano e meio, mas não sabia nada de português, não me preparei para isso e tentei não criar expectativas sobre o país antes de chegar porque poderia me decepcionar. Eu queria sair da Europa, conhecer uma língua latina, de preferência o português, isso desde criança, então cheguei ao Brasil”, conta a estudante. Para ela, o idioma foi o principal obstáculo quando de sua chegada. Seu idioma nato é o francês e ela afirma ter encontrado algumas semelhanças entre o português e sua língua, o que pode ter facilitado.

Quando questionada sobre o que mais a agradou no Brasil a resposta vem rápida: “As pessoas! Vocês são demais, os brasileiros são muito calorosos”, destaca. Essa aliás, é uma das diferenças mais gritantes observada pela suíça com relação aos europeus. “Os relacionamentos entre as pessoas aqui são mais próximos. Quando você vai conhecer uma pessoa, você vai mesmo, não em distância como tem lá. Isso eu gostei muito”, enfatizou lembrando que na Europa as pessoas são muito reservadas.

Emma está hospedada na casa da família de Edina Consolini, onde vive com o pai hospedeiro e um irmão brasileiro, mas quando chegou ao Brasil foi recebida inicialmente por outra família. Nem sempre o relacionamento entre ambos dá certo e foi o caso de Emma, que logo depois precisou ser encaminhada para outra família. Foi quando conheceu Edina. “Me ligaram da AFS dizendo que tinha uma estudante com problemas com a família, fiquei emotiva e resolvi dar uma chance para essa carinha aí. Li o documento dela que mandaram para mim, conversei com o meu marido, meu filho e resolvemos tentar”, afirmou a mãe hospedeira que hoje enche os olhos de lágrimas ao lembrar que a menina que recebeu como filha retorna para o país de origem daqui há três meses.

O que ela ganhou ao hospedar uma estrangeira? “Ganhei carinho, uma filha que eu não tinha, já que eu só tenho um menino. A gente tem intimidade, nos damos muito bem e conseguimos falar sobre determinados assuntos”, afirmou. “Quando ela for embora eu vou sentir muita falta, ela é muito bacana, uma pessoa adorável”, afirma.

Política brasileira em pauta

Os acontecimentos no cenário político brasileiro também estão entre os assuntos conversados com Emma durante a entrevista e a adolescente não se sente intimidada em comentar a saída da presidente Dilma Rousseff, que foi substituída pelo seu vice, o presidente interino Michel Temer. “No meu primeiro dia de aula um colega da sala me disse que aqui tinha problema com a presidente. Depois eu percebi tudo e apesar de eu ser de fora, acho que ainda tem muito progresso pela frente para o país. Ela foi afastada e agora tem esse outro ai, mas não sei, acho que ele já fez algumas coisas que não concordo. Fechou o ministério da Cultura e dos Direitos Humanos”, comentou.

Emma estava habituada à um inverno de sete à dez graus negativos na Suíça mas diz não se incomodar com o calor que conheceu no Mato Grosso do Sul. “Lá também é quente no verão então, eu acho que deve ser quente pra todo mundo”, brincou.
Estudantes estrangeiros procuram família acolhedora para intercâmbio cultural
 Um grupo de quatro adolescentes estrangeiros deve chegar no Brasil no mês de agosto. São dois italianos, uma americana e um quarto estudante que ainda não foi escolhido pelo programa. Eles têm, em média, 16 anos e irão se juntar aos outros 22 jovens que já vivenciam a experiência aqui no Estado. Sua permanência no Mato Grosso do Sul depende de famílias dispostas a receber um membro a mais e abriga-lo como parte integrante. “É como ter um filho a mais em casa”, explica a presidente do comitê regional da AFS (American Field Service), Paula Ferreira. “Ele será como um membro da família mesmo e precisa estar aberto a essa troca cultural, que pode ter suas dificuldades iniciais as vezes, mas que é muito gratificante no final, com a construção de laços ao redor do mundo”, afirma.

AFS

A AFS é uma Ong, sem fins lucrativos, que opera por meio do voluntariado. Seu principal objetivo é promover a paz mundial através da interação entre as culturas. “Quando se conhece uma nova cultura, a gente acaba se tornando mais tolerante e passa a entender melhor as diferenças”, afirma Paula. Segundo ela a organização está sempre disposta a dar o seu melhor com suporte adequado tanto para o estudante que chega, quanto para as famílias que se dispõem a receber ou as escolas.

Parcerias com escolas privadas possibilitam receber os alunos que, na maioria das vezes, chegam sem conhecer muito do idioma local.

Quando chegam ao Brasil, cada estudante possui um conselheiro particular, um voluntário que vai atuar como uma ponte entre ele e a família. No começo, pode haver algum tipo de conflito pessoal, afinal de contas, é uma pessoa de outro país que chega e precisa, além de aprender o idioma, se adequar as normas de uma nova família, uma nova casa, onde devem ficar pelo período de seis meses a um ano.

Receber um interncambista em casa é muito fácil mas requer cuidados. Os pais hospedeiros são os responsáveis pelo adolescente que precisa se adequar às normas da família e às normas da AFS. Eles não podem, por exemplo, fumar ou ingerir bebida alcoólica. Devem obedecer às normas da família que o recebe e caso as regras sejam quebradas, corre seriamente o risco de ser deportado para o país de origem.

Interessados em receber um filho hospedeiro ou encaminhar um estudante para fora do país podem tirar suas dúvidas por meio dos telefones 9849-1070 e 9239-2683.

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