“Pelo sonho da minha Ílha, vendi flores no semáforo”

A filha, de 5 anos, só pensava em ir pra praia e andar de avião. O pai juntou R$ 4 mil em 37 dias de vendas!  "Papai, quando vamos morar na praia outra vez?”, perguntou minha menina, me encarando com aqueles olhinhos arregalados de empolgação. A Maryana tinha só 2 anos quando eu e a Mirian, minha esposa, levamos nossa pequena de carro para passar uma semana no litoral de Santa Catarina, em 2013.

Os sete dias de viagem fizeram nossa filha pensar que tínhamos nos mudado pra lá. Mas a verdade é que, depois disso, nunca mais repetimos o passeio. É que somos de Campo Grande (MS) e o mar fica longe demais pra passar só um fim de semana. Por isso, respondi à Maryana: “Papai não tem dinheiro pra viajar”. E ela me deu uma resposta direta: “Mas eu tenho!”. A danadinha foi até o quarto, pegou os três cofrinhos de moeda dela e quebrou um por um na minha frente. “Olha, papai, quanto dinheiro. Dá até pra gente ir de avião!” A atitude dela me emocionou. Contei todas as moedinhas e decidi investir os R$ 165 que ela tinha juntado em materiais para vender água no farol: chapéu, pochete, caixa de isopor, canudinhos e as garrafinhas. Com o dinheiro, bancaria uma viagem de avião para a praia pela primeira vez! 

Peguei um caderno e comecei o planejamento para realizar o sonho da minha menina. Tinha milhas do cartão de crédito e consegui voos de ida e volta até Fortaleza para a Maryana, minha esposa, minha mãe e eu por R$ 1.300. Também achei um apartamento mobiliado para alugarmos na Praia do Futuro por R$ 844 (sete diárias).  Arrisquei e comprei tudo parcelado no cartão. Era 23 de dezembro de 2014 e eu precisaria juntar R$ 3.500 até o dia 3 de março para bancar a viagem.

O próximo passo foi ir para as ruas. Como sou funcionário público e tenho flexibilidade de horários, aproveitei os dias de folga e as horas livres para vender garrafas de água num farol de uma avenida perto de casa. Não era fácil ficar torrando embaixo do sol e ainda ter que lidar com as pessoas que fechavam o vidro do carro na minha cara pra lucrar cerca de R$ 40 por dia. 
Descobri que vender rosas era mais lucrativo 

Foram 11 dias vendendo água das 14 h às 18 h. Nesse tempo, fiz amizade com um um rapaz que vendia buquês de rosa naquele mesmo farol e percebi que as pessoas compravam muito mais flores do que água! Troquei uma ideia com o cara e perguntei o que eu tinha de fazer pra vender rosas. Ele disse que conversaria com o patrão dele. No dia seguinte, recebi a boa notícia: eu poderia vender as rosas do mesmo fornecedor desde que fosse em outro farol, para não concorrer diretamente com o meu colega. Topei na hora! 

Em janeiro deste ano, usei o dinheiro que ganhei vendendo água para investir nas rosas e comecei a oferecê-las no meu novo ponto: o farol de um bairro chique. Vendia buquês com duas rosas colombianas por R$ 10 e buquês com seis rosas nacionais por R$ 15. Na primeira semana, lucrei R$ 80 por dia. Fiz as contas e notei que não conseguiria atingir minha meta vendendo sozinho. Então, minha esposa começou a me ajudar! Juntos, trabalhando cerca de quatro vezes por semana das 17 h às 21 h, passamos a lucrar cerca de R$ 140 por dia!

Para turbinar o “negócio”, mandei fazer camisetas com os seguintes dizeres: “Dê um buquê a quem você ama. Porque fazer alguém sorrir custa pouco”. Isso ajudou bastante! As pessoas sorriam pra gente quando nos viam com flores nas mãos. Abaixavam o vidro pra conversar, perguntavam o preço e acabavam comprando. 

Continuamos naquele ritmo de venda até que, no dia 3 de março, conseguimos juntar R$ 3. 963! Nós tínhamos conseguido! Pagamos as passagens e a hospedagem e embarcamos no dia seguinte. Eu nunca tinha visto minha filha tão feliz como naquele dia. Os olhos dela estavam tão arregalados como quando ela me pediu pra viajar.

A Mary segurou firme na minha mão na hora que o avião levantou voo, mas logo relaxou e curtiu a sensação. Quando chegamos, aproveitamos todos os minutos da viagem. Comemos caranguejo 
pela primeira vez, passeamos num parque aquático famoso, dançamos forró, assistimos a um show de comédia, visitamos a feirinha da madrugada e tomamos muito sol. 

A Mary deu vários mergulhos  e não queria sair do mar nem quando escurecia. Minha filha pirou de tanta alegria! A felicidade dela me deu a certeza de que todo o nosso esforço valeu a pena.

Vivemos sete dias inesquecíveis e voltamos pra Campo Grande com o gás renovado. E não paramos de vender as rosas não, viu? É que tenho outro plano em mente: quero abrir uma floricultura acessível, onde as pessoas possam comprar buquês variados com o dinheiro que tiverem no bolso, mesmo que seja apenas R$ 2. Para isso, pretendo juntar R$ 20 mil com minhas vendas no farol.  

Ah, e a Maryana também tem novos planos de viagem. No voo de volta, logo depois que o avião pousou, ela me olhou e disse: “Papai, quando vamos para a Disney?”. Ah, e você tem alguma dúvida de que nós iremos mesmo? – EDMIR CLARO JÚNIOR, 37 anos, funcionário público, Campo Grande, MS
 

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