Ocupo o lugar de alguém que questiona’, diz ativista negra que foi presa na preparação de bloco em BH

nome é uma referência às vilas e favelas. Vanessa Beco, 42 anos, ativista do movimento negro e feminista, nascida na periferia, mãe de dois filhos e propagadora da cultura hip hop. Com as bandeiras que defende e com a trajetória na militância pela valorização da juventude negra e favelada, ela considera que assumiu "um lugar de fala" e cobra direitos.

“Ocupo o lugar de alguém que questiona”, disse Vanessa, com autoconhecimento do papel que assumiu não só na sua comunidade, o Morro das Pedras, na Região Oeste da capital mineira. Integrante do coletivo Negras Ativas, que promove o debate sobre raça e gênero, ela tem atuação intensa em eventos e iniciativas que tentam reverter a desigualdade.
A sede do coletivo fica em Belo Horizonte. Uma das ações de mobilização é um grupo de rap. Formada em gestão de pessoas, Vanessa é servidora da área de educação e participa do Fórum das Juventudes da Grande BH, que contribui para a implementação de políticas públicas na área.

Na última semana, ela esteve no centro de uma polêmica que é retrato do Brasil. Envolve discriminação, impedimento de direitos e arbitrariedade. A ativista foi presa no dia 1º de março durante a preparação do bloco de pós-carnaval Arrasta Favela, em um dos aglomerados mais conhecidos da capital mineira. Vanessa não apresentou o documento de identidade solicitado por um sargento e, acompanhada da advogada, foi levada para a delegacia em um carro da Polícia Militar (PM).

“Senti discriminada, estávamos sendo humilhados de forma desnecessária. Fomos impedidos de exercer o que estava combinado. Isso é recorrente na comunidade favelada, que não consegue ser plena, que tem impedimentos na sua vida, enquanto cidadão. Isso é muito perverso”, afirma a ativista.

Ela explica que não viu a necessidade de mais alguém se identificar, visto que um representante do bloco já havia se adiantado, e por isso questionou a abordagem policial.

O bloco estava devidamente credenciado, segundo a prefeitura. Na delegacia, Vanessa foi ouvida e liberada, mas ainda terá que comparecer a uma audiência.

“É um fato lamentável, que vai ser investigado. Eu acho que, a princípio, existem indícios de abuso de autoridade, mas o que vai dizer isto é a própria investigação”, afirmou o ouvidor de Polícia da Ouvidoria-Geral do Estado, Paulo Alkimim.

O ouvidor informou que abriu um procedimento de investigação e o encaminhou à Corregedoria da Polícia Militar. Vanessa e testemunhas vão ser ouvidas e vídeos que registraram o momento vão ser analisados. O prazo para conclusão é de 90 dias contados a partir da última quinta-feira (2).

O bloco, que desfilaria na Quarta-Feira de Cinzas, reunindo ambulantes e moradores da periferia que trabalharam pesado durante o carnaval, nem chegou a sair. O deveria ser um momento de festa e integração da comunidade acabou virando um boletim de ocorrência por desobediência. A comunidade ficou à espera do som da percussão.

“Houve uma postura discriminatória e preconceituosa com o bloco naquele momento. Os representantes da segurança não deram conta de serem questionados na sua postura”, afirma Vanessa, que esteve diante da marginalização, sendo impedida de participação no meio social.

“De alguma forma fomos impedidos de exercer o que estava combinado, isso é recorrente na comunidade favelada, de não conseguir ser plena, de ter impedimentos na sua vida, enquanto cidadão, isso é muito perverso”, completa.

Atuante e reconhecida na militância em Belo Horizonte, com participações em eventos dentro e fora do Brasil, ela se sente privilegiada por ter uma voz de alcance, capaz de expor as dificuldades da periferia.

“Pessoas como eu passam por várias discriminações. E isso não ganha visibilidade, não ganha. Ser mulher negra e ser favelada é algo puxado nesta sociedade que insiste em se manter da forma como é", diz.

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