Veículos são apreendidos circulando, mas anos depois, acabam vendidos como sucatas, em leilões. Prova do desleixo que ocorre nos pátios do Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul (Detran/MS).
Hoje, são 20 mil carros “apodrecendo” em todo Estado, mantidos em locais a céu aberto, expostos a sol ou chuva, e resultando em outros tipos de problemas.
Há riscos à saúde pública, pois tornam-se locais propício para acúmulo de água e proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya.
O descaso também contribuiu para abastecer mercado ilícito dos desmanches, pois peças e outros itens são furtados dos veículos de dentro dos pátios, principalmente no interior do Estado, onde não há monitoramento. Assim, mesmo que o condutor queira quitar os débitos e reaver o carro ou moto, encontrará seu antigo bem em péssimas condições. Não há qualquer cuidado para preservar essa propriedade.
Somente no ano passado, foram pelo menos dois flagrantes de grupos que furtavam peças de veículos dos pátios do Detran no interior do Estado. Em janeiro, foi desarticulada quadrilha que atuava em Terenos desde 2006, furtando desde retrovisores a motores. Eles “alimentavam” rede de receptadores.
Também no ano passado, outro flagrante foi feito em Batayporã, onde quatro pessoas estavam retirando as peças.
Os criminosos já deixaram evidente que extrapolam todos os limites. No ano passado, foram presos jovens que furtavam itens de carros apreendidos que estavam no pátio da Delegacia Especializada de Repressão a Furto e Roubo de Veículos (Defurv).
Nem mesmo o receio da polícia evitou que eles cometesse o crime. Na Capital, a justificativa é que há segurança terceirizada, câmera e cerca elétrica.
O poder público perde dinheiro com a demora nos processos, pois os veículos – muitos deles com documentos atrasados e várias multas – poderiam ser vendidos por valores mais altos.
Na maioria dos casos, não é possível nem recuperar o montante relativo a essas pendências. No leilão que ocorre esse mês, por exemplo, um Celta com valor de mercado em R$ 14,7 mil terá como lance inicial R$ 1 mil, pois já não está em condições de circular.
Certamente, há casos mais graves, pois há carros esquecidos nos pátios há mais de 20 anos, ainda fora da lista de vendas. Além da chance perdida de arrecadar mais, há o dispêndio com segurança que, como mencionado, é mantida em Campo Grande. Há a empresa terceirizada e, ainda, estrutura da Polícia Civil instalada dentro da unidade do Detran da Capital.
O diretor-presidente do Departamento, Gerson Claro, culpa a burocracia pela demora até leiloar os veículos, comentando em reportagem publicada na edição de hoje sobre as várias restrições do carro ou moto, obedecendo a questões legais.
Já passou da hora para que providências sejam adotadas. Hoje o problema – repetido em outros estados do País – está esquecido e há necessidade urgente de soluções.
O poder público não pode compactuar com a série de irregularidades que decorrem do sucateamento de veículos. A negligência pode ser interpretada como cumplicidade, pois hoje o cenário é de completo descaso, criando até mesmo condições de risco à saúde e segurança.




