Admirar a paisagem parece insuficiente para a psicóloga Rosana Costa que, aos 52 anos, prefere "fazer parte" dos ambientes. Montada em uma Haybusa 1340 cilindradas, ela percorre diversos estados brasileiros e vai, aos poucos, conhecendo as peculiaridades de cada lugar. Na última viagem, ela percorreu 11 mil quilômetros em 37 dias, passando por Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Acre e Manaus. Na bagagem, de mais importante, ela trouxe histórias.
"O objetivo é a interação, conhecer a cultura do local", diz Rosana. Esse é um dos motivos que a fazem ficar hospedada na casa de pessoas da "irmandade" e não em hotéis. "No hotel eu vou chegar e vou ser mais uma, mas com os motociclistas, não. Eles vão querer ouvir minhas histórias e eu vou ouvir as deles". A irmandade a que se refere são os integrantes de motoclubes. Pessoas, assim como ela, "apaixonados" por motos e pelo estilo de vida do motociclista.
O colete de couro é uma das peças do vestuário desse estilo motociclista e foi com essa roupa, cheia de botons com indícios dos locais visitados, que Rosana chegou ao Acre. "Cada lugar tem uma coisa. Eu lembro das estradas, mas não dá pra chamar de estrada, porque o que tem lá não são buracos, são crateras. Tem que escolher o menos fundo. Para desviar, o caminhão joga em cima de você. Coloquei minha vida em risco", lembra.
De Rondônia, tem a lembrança de ter de pagar pedágio para os indígenas. "Na BR-174, eles trancam a rodovia com cadeado, cobram preço tabelado e te dão recibo. Como pode? Mas nós é que estamos na terra deles". Outra recordação é pôr do sol no rio Madeira. "É lindo", diz.
Em Manaus, Rosana teve o sentimento de isolamento. "Você fica ilhado. Ou anda de balsa ou de avião". Ela optou pela primeira opção e teve de dormir quatro noites em uma rede que, vez ou outra, acabava "chocando-se" em outra. "As redes ficam muito próximas umas das outras".
Antes de embarcar, ela comprou uma garrafa de água mineral em uma tentativa de evitar escovar os dentes ou beber a água barrenta, mas depois preferiu não usar. "Tem que estar inserido naquela realidade".
CONHECENDO O BRASIL
Esse interesse em estar inserida nas realidades de cada município faz com que Rosana tenha uma disposição maior em viajar sem sair do solo brasileiro. "O Brasil é lindo! Vamos conhecer aqui primeiro pra depois sair. Vamos falar da nossa cultura das nossas belezas".
E essa não é a primeira viagem da psicóloga que pretende "rodar o mundo em duas rodas", como ela mesmo diz. Em ocasiões anteriores, ela já passou pelo Sul, Norte e pelo Nordeste, quando foi vítima de assaltantes.
"Estava na hora errada e no lugar errado, em uma BR que passa dentro da cidade. Uma quadrilha de Salvador que fazia assaltos lá uma vez por ano me abordou. Eles levaram toda a bagagem e eu fiquei só com o capacete e a jaqueta. Fui comprando só as coisas de emergência e prossegui com a viagem". No roteiro do ano que vem estão Maranhão, Piauí, Amapá e Pará.
"Vou me programando para as férias. Aqui em casa todo mundo já sabe que no 13° não compro presente pra ninguém e vou juntando. Vou fazendo uma economia mensal", brinca.
O INÍCIO
Quem influenciou Rosana a se tornar motociclista foi o pai dela, Russicle Costa, quando a presenteou com uma moto 50 cilindradas, há mais de 30 anos. Hoje, a psicóloga é coordenadora estadual da Confraria da Hayabusa em Mato Grosso do Sul.
"Comprar moto em uma loja qualquer um compra, mas ser motociclista é diferente. Tem que ter um espírito de motociclista. Participar de ações sociais, respeitar as leis de trânsito, pensar no próximo. Essa é a diferença do motoqueiro para o motociclista", finaliza. Ela também é integrante do Feras do Pantanal Motoclube.




