Delarinda aparece na sala do apartamento onde vive fazendo força para se levantar da cadeira de balanço e dar um abraço ao saber da entrevista. Ela, que nunca gostou de mencionar a idade, comemora hoje 104 anos de vida. É de 18 de fevereiro de 1913. Mas as felicitações já começaram há semanas na família que guarda lembranças de um mãe e avó batalhadora.
Com sorriso tímido e um jeito contido, Delarinda Bruno Szachalewicz vive em Campo Grande ao lado da filha Sônia Szachalewicz Loureiro, de 78 anos. O sobrenome difícil de pronunciar tem explicação no casamento. “Meu marido era russo”, explica Delarinda.
Apesar da idade, ela escuta bem, mas faz um esforço para responder tudo. As vezes, a memória vai ficando para trás. Mesmo assim, tem coisas que ela nunca esquece. “A cabeça é cheia de memórias e uma atrapalha a outra”, justifica.

Dos 20 irmãos, só Delarinda está viva. Das gerações que vieram depois, a mãe de três filhos já conta 7 netos, 8 bisnetos e 4 trinetos.
Bem vestida e com vaidade aparente, dona Delarinda segura o jornal que faz questão de ler todos os dias. A rotina é levantar cedo, ver televisão, muitas vezes até conversa com o apresentador. Também curte os amigos e, claro, não abre mão da cervejinha gelada na hora do almoço. “Eu gosto, mas é só um pouquinho”, garante.
A filha Sônia ajuda nas lembranças. Ela conta que a mãe nasceu me Cuiabá e, antes de chegar a Campo Grande, foi morar em Corumbá em 1936, logo que casou.
“Ela conheceu meu pai em Cuiabá, ele veio da Rússia refugiado do período de guerra. Meus avôs mandaram o meu pai para cá. Naquele tempo, ele trouxe também muito ouro, eu não sei como, mas trouxe. Quando chegou aqui, até vendia ouro para médicos e dentistas. Quando casou com a minha mãe, vieram para Corumbá, foi ali que a nossa família praticamente se criou”, recorda Sônia.

Durante a vida, a mãe sempre manteve o jeito exigente para que tudo fosse feito da maneira corret
“Minha mãe sempre foi dona de casa, mas também trabalhava com a culinária, fazia salgados, bolos e doces para festas. Eram receitas de família. Ela sempre gostou muito de cozinhar. Fazia uma empada como ninguém e uma saltenha de carne de dar gosto”, elogia a filha.
“Sempre fui de cuidar crianças e atender os que precisavam”, lembra Delarinda sobre os anos de dedicação.
Sônia recorda que, enquanto o pai trabalhava em um bar em Corumbá, a mãe distribuía os salgados. Cansaço, foi palavra que nunca existiu. "Ela estava sempre disposta e preocupada conosco. Ela e meu pai queriam o melhor pra gente. Foi no trabalho que eles formaram três filhos. Eu em Pedagogia, um Medicina e outro em Administração", se orgulha.
O pai faleceu aos 68 anos, em 1975. Delarinda continuou trabalhando firme. Alguns anos depois, quando o filho caçula morreu, deixou de se dedicar à culinária. "Foi um momento muito difícil para ela, era nosso irmão caçula e ela tinha todo apego. Quando ele se foi, ela não quis mais fazer nada. Mesmo assim, continuou sorrindo", diz.

De vestido estampado, perfumada e unhas feitas, ela que nunca gostou de falar da idade, faz questão de deixar a vaidade à mostra. "É só a vontade de viver", justifica rapidamente sobre o segredo da longevidade.
De um jeito simples, fala das razões que preservaram a vida e deram à ela o privilégio de chegar ao 104 anos. "Eu sempre fiz tudo com muita vontade e amor. É isso que mantém. A gente tem que fazer o que gosta, não é", reflete.
Sônia lamenta não ter o registro de nascimento original para exibir e diz que muitas vezes se sente mais fraca que a mãe. "Eu acho que é a vontade de viver e a cabeça jovem que a mantém viva. Ela nunca se entregou, sempre gostou de trabalhar e as vezes, quando eu falo que estou cansada, ela fica até brava comigo", conta.
Dentro do apartamento, Sônia sente falta da cantoria nos dias em que a mãe perde a energia. "Tem dias que está toda faceira, mas em outros ela esquece as palavras. Ela sempre gostou muito de falar, cantar e fazer poesias. Até hoje ela canta, o dia que eu não escuto uma música, eu fico triste", lamenta a filha.
Com ajuda de Sônia e as mãos na cabeça, como quem faz de tudo para lembrar as palavras, Delarinda dispara uma poesia antes da despedida:
"Quem canta seus males espanta
Quem chora seus males alimenta
Eu canto para disfarçar
Uma saudade que me atormenta
Choro dia e choro noite
Sem haver consolação
Por ver ausente aquele, que dei meu coração…"





