A operação tapa-buracos, drama que volta às práticas de obras e licitações toda época de chuvas em Campo Grande, é avaliada como ineficiente e mal planejada, na opinião de profissionais da área. Doutorando em Engenharia de Transportes, professor de Engenharia Civil e coordenador do Laboratório de Transportes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, David Alex Arancibia Suarez, afirma que a prática é similar a “dar paracetamol para alguém com câncer”.
“Imagine, você precisa ter uma qualidade de vida daqui a quarenta anos, então você começa a ter uma qualidade de vida melhor agora, e é como a pavimentação, com um bom tratamento médico, um tratamento preventivo, para evitar um futuro problema, como ter que fazer uma quimioterapia, por exemplo. A operação tapa buracos, para mim, é uma quimioterapia no pavimento. É aplicado um sistema paliativo em cima de algo crítico, é você dar um paracetamol para curar um câncer”, explicou.
David realiza pesquisas sobre pavimentações e, para o professor, o que falta na administração de obras asfálticas em Campo Grande é um bom gerenciamento de pavimentos. “Do meu ponto de vista, a falha está no sistema de gerenciamento dos pavimentos, em quem está gerenciando. Por que? Porque ele é encarregado de verificar como são apresentados os projetos que vão passar por licitações, e dentro das licitações tem que se feito um sistema de controle de qualidade no pavimento, que não pode ser feito na correria”, afirma.
No laboratório de transportes da UFMS, uma das pesquisas coordenadas por David é gerenciamento de pavimentos. Ele explica que utilizando um índice de qualidade que avalia trechos e detalhes do pavimento, os gastos são menores e a ‘cirurgia alfáltica’ é eficiente, levando em conta os problemas apresentados em cada via ou rodovia.
“Com uma avaliação mais rigorosa, que leve em conta um ICP, (Índice de Condição de Pavimento), avalia-se a quantidade de defeitos por quilometragem de pavimento. Em determinadas áreas. ‘Olha, o pavimento da Zahran do quilômetro tanto ao quilômetro tanto está bom, mas de tal pra frente a qualidade está ruim”. Essa intervenção é bem mais econômica do que avaliar o pavimento todo como ruim ou como péssimo”, explica.
Outro profissional da área, o engenheiro civil Eduardo Francisco dos Santos Filho, acredita que a falha é mais técnica, no modo como os buracos são operacionalizados. “Por acaso passei na Ceará esses dias, e o que acontece: não fazem a preparação correta do buraco, o correto seria você retirar, compactar e colocar uma camada drenante de pedra. Ai você colocaria essa emulsão asfáltica, esse seria o trabalho correto”, disse.
“Eles simplesmente estão jogando essa emulsão em cima”, criticou. Na opinião do engenheiro, o ‘serviço mal feito’ tem motivos econômicos. “Eu acredito que seja porque é mais econômico, e é mais rápido, e então é feito ‘meia boca’”, afirmou.
Presidente do Sindicato dos trabalhadores nas indústrias da construção e do mobiliário de Campo Grande, José Abelha acredita que o erro é realizar o serviço sempre em períodos de chuva, ao invés de prevenir o problema. “Olha a gente tem visto que o trabalho é feito em dia de chuva e você teria que fazer um retrabalho, teria que ser feito em período de sol, para ter duração. Se você fizer isso você vai perder material, o material é jogado fora, e a mão de obra é jogada fora”, defende.
“Não pode gastar dinheiro público. Nós estamos atrás do Prefeito pra ver além da viabilidade de fazer de uma vez, para que não ocorra reclamações pelo público. Nós falamos que hoje a melhor coisa a ser feita é o recapeamento das vias, está tudo tão remendado que tem elevações. A gente vê que tem que ter um estudo em cima disso”.
Parceria com pesquisa de qualidade
Sobre o estudo técnico, David Alex sugere que a melhor saída é a parceria da Prefeitura com centros técnicos especializados, que produzam pesquisas e soluções preventivas para os pavimentos. “A parceria com o poder público traz a parte prática e a Universidade fornece a pesquisa, e é isso que faz falta. Porque nós somos imparciais, se é feita uma avaliação, não vamos favorecer ninguém. A Universidade vai mostrar a realidade das condições, seja de um pavimento, seja de uma rodovia, seja de uma rua”.
“A metodologia indica que cada local vai ter um sistema de avaliação diferente. Um sistema específico, por exemplo, de uma rodovia Campo Grande-Corumbá, e vai ter um banco de dados pra avaliar toda essa rodovia, ou por trechos, e está sendo feito esse tipo de implementação primeiro na área pesquisa. E estamos tentando fechar a parceria com a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para estudos de caso”, conta o professor.
David conclui afirmando que planejamento pode trazer sustentabilidade e promoção social à cidade e às rodovias. “Vamos falar de sustentabilidade. Toda intervenção que é feita produz um impacto ambiental. Quando menos intervenções agressivas, quanto melhor gerenciamento, menos jazidas vão ser abertas, menos material que algum dia vai acabar será usado. Quando você trabalha com uma intervenção agressiva… você já passou por perto de uma intervenção de tapa buracos? Já sentiu o cheiro que produz?”.
“Dentro da cidade, pessoas idosas e mulheres grávidas que andam de ônibus, por exemplo… ou uma pessoa grávida que esteja dirigindo e caia em um buraco, não corre o risco de lesar alguma coisa na gravidez, ou na coluna? Se alguma pessoa tem um infarto, minutos na vida da pessoa fazem a diferença. Não dá pra pensar que a Universidade só pensa e só pesquisa coisas teóricas”, defende.
A Caixa Econômica Federal irá financiar a operação de recapeamento de algumas avenidas na Capital. São R$ 19 milhões que serão destinados ao Exército, responsável pela operação. Até agora, no entanto, o projeto não saiu do papel.
Após a morte do motociclista Romildo Jacinto Estruquel, 42 anos, durante a madrugada de domingo (17), ao passar por um buraco na Rua Pirai, próximo a Avenida Duque de Caxias, o delegado da Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Centro, Enilton Zalla, afirmou que a causa do óbito foi o buraco que provocou a queda.




