Os rumos de Mato Grosso do Sul sob o olhar de Fábio Trad

Foto IA

O cenário político de Mato Grosso do Sul para as eleições de 2026 ganha contornos de intensa polarização e debate ideológico com a consolidação da pré-candidatura de Fábio Trad ao Parque dos Poderes. Egresso de uma das famílias de maior tradição política no estado, o advogado, professor universitário e ex-deputado federal agora empunha a bandeira do Partido dos Trabalhadores (PT).

Sua plataforma se posiciona como uma antítese à atual gestão estadual, estruturando-se em dois pilares centrais: o método da “escuta ativa” — viabilizado pela sua Caravana Popular — e um alinhamento programático e estratégico umbilical com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como analista, observo que a proposta de Trad não se limita a uma mera troca de nomes, mas propõe uma verdadeira inversão de prioridades na máquina pública sul-mato-grossense, visando à construção de um Estado mais participativo.

O primeiro grande embate que Fábio Trad propõe está na economia e na gestão fiscal. O pré-candidato faz duras críticas ao modelo de endividamento público de longo prazo e ao volume de renúncias fiscais concedidas a grandes corporações, defendendo a tese de que o Estado precisa gastar menos com o topo da pirâmide e investir diretamente no cidadão. Através da interiorização defendida em suas andanças por mais de 44 municípios, Trad sinaliza que seu plano de governo não será desenhado nos gabinetes climatizados da capital, mas sim moldado pelas assimetrias regionais colhidas na poeira do interior.

Essa mesma lógica de ruptura se aplica à saúde pública, onde ele se coloca na trincheira oposta aos modelos de privatização disfarçada e rechaça veementemente o repasse de unidades hospitalares para Organizações Sociais (OSCs). Para o pré-candidato, a lógica de mercado precariza o Sistema Único de Saúde (SUS) e afeta justamente a parcela mais vulnerável da população.

Diante disso, sua proposta foca na eficiência contínua em detrimento dos chamados “mutirões eleitoreiros” de véspera de pleito. O petista assume o desafio de descentralizar o atendimento para desafogar as grandes estruturas de Campo Grande e reestruturar a logística de distribuição para erradicar o desabastecimento de remédios básicos no interior do estado.

Como professor por formação, Trad traz para a educação um discurso que une o desenvolvimento social à inovação tecnológica. Sua principal vitrine é a promessa de criar escolas públicas de tempo integral com padrão de excelência equivalente aos colégios privados mais renomados do país, priorizando as regiões de fronteira, que são historicamente vulneráveis. Soma-se a isso a introdução de ferramentas modernas, como a Inteligência Artificial (IA), tratada aqui como um recurso pedagógico real, e não como mera peça de propaganda governamental.

No entanto, o candidato demonstra saber que a tecnologia não funciona sem o fator humano, razão pela qual firmou compromissos importantes para atrair o funcionalismo público. Isso inclui o alinhamento com sindicatos como a Fetems, o cumprimento rigoroso do piso salarial e a substituição de contratos temporários por concursos públicos periódicos.

Esse olhar técnico também se estende à segurança pública, cujo diagnóstico apresentado é cirúrgico: um déficit de cerca de 4.000 policiais militares que sobrecarrega as forças remanescentes, principalmente nas pequenas cidades. A engenharia financeira proposta por Trad para resolver o problema é ousada, consistindo em revisar os benefícios fiscais bilionários outorgados a grandes empresas e canalizar essa receita para a recomposição do efetivo e para a melhoria salarial de quem está na ponta. Sob o manto da cooperação federativa com o Ministério da Justiça, o plano visa combater o crime organizado e os delitos fronteiriços por meio da inteligência policial.

No setor produtivo, sabendo que Mato Grosso do Sul é, por excelência, a terra do agronegócio, Trad foge do antagonismo radical e busca um ponto de equilíbrio entre a força das commodities e a subsistência da agricultura familiar. Na base produtiva, ele pretende fortalecer órgãos como a Agraer e expandir o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), garantindo que a produção de assentados abasteça a rede pública de ensino e os hospitais.

Já na macroeconomia, a aposta reside na industrialização do agro. O candidato defende incentivos para empresas que processem a matéria-prima, como soja, milho e carne, dentro do próprio estado, retendo o emprego e o valor agregado localmente em vez de apenas exportar grãos in natura. Essa visão caminha em paralelo com a sustentabilidade, afinando-se com a agenda global do governo federal ao promover o mercado de carbono e buscar a pacificação do campo por meio da regularização fundiária baseada na segurança jurídica.

Injetando no debate político sul-mato-grossense uma densidade programática necessária, a pré-candidatura de Fábio Trad propõe um olhar diferente sobre o estado. Suas propostas tensionam o modelo econômico vigente e testam a recepção do eleitorado a um projeto alinhado à esquerda nacional. Se as urnas chancelarão o passaporte da Caravana Popular rumo à governadoria, caberá ao tempo e ao debate democrático decidir; mas é inegável que suas diretrizes forçam Mato Grosso do Sul a olhar para as suas próprias contradições.

Por Antonio Ueno, Cientista Político

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