Brasil enfrenta desafios globais, mas mantém oportunidades estratégicas, avaliam especialistas

Debate promovido pelo BFBC analisou os impactos da geopolítica, das eleições de 2026 e das relações comerciais com os Estados Unidos sobre a economia brasileira

Tarifas comerciais, eleições presidenciais de 2026, tensões geopolíticas e a corrida global por minerais críticos estiveram no centro do webinar promovido pelo Brazil-Florida Business Council (BFBC) em 18 de junho. O encontro reuniu especialistas com experiência em instituições internacionais, governo dos Estados Unidos e consultorias de risco político para discutir os desafios e oportunidades para o Brasil nos próximos anos.

Entre os temas abordados estiveram os reflexos econômicos dos conflitos no Oriente Médio, as investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos, o cenário eleitoral brasileiro e o potencial de setores estratégicos como mineração, agronegócio e energia.

Guerra no Oriente Médio e o impacto sobre o Brasil

O economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do FMI, Banco Mundial e BID, avaliou que os conflitos recentes no Oriente Médio envolvendo o Irã e a região do Estreito de Hormuz reforçaram a preocupação global com segurança energética e cadeias de suprimentos.

Segundo ele, mesmo com a redução das tensões, os efeitos sobre os mercados devem permanecer. “As coisas não serão mais como antes. O prêmio que os países estão atribuindo à segurança energética subiu”, afirmou.

Canuto observou que o movimento favorece investimentos em fontes locais de energia, especialmente renováveis, e alertou para a dependência brasileira de fertilizantes importados, considerados estratégicos para a competitividade do agronegócio.

Tarifas americanas e ambiente de negócios

Kellie Meiman Hock, ex-diretora para Brasil e Cone Sul no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), deu um panorama das investigações comerciais conduzidas pelo governo americano envolvendo o Brasil.

Ela avaliou que o impacto tem sido parcialmente mitigado pelo número de exceções concedidas. Apesar disso, acredita ser fundamental que empresas brasileiras e investidores mantenham diálogo ativo com autoridades e parceiros americanos. “É o momento de levantar a voz e mostrar onde as importações brasileiras são indispensáveis para a produtividade e a criação de empregos aqui nos Estados Unidos”, afirmou Hock, destacando que a relação comercial entre os dois países possui características que reduzem o espaço para medidas tarifárias motivadas exclusivamente por razões políticas.

Compliance e riscos regulatórios

O debate também abordou os impactos econômicos decorrentes da classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras (FTOs) pelos Estados Unidos.

Canuto observou que a medida já vem provocando maior preocupação de empresas com processos de compliance e gestão de riscos, especialmente entre companhias que atuam simultaneamente nos dois países.

Bruna Santos, diretora do Programa Brasil do Inter-American Dialogue, avaliou que temas de segurança e comércio exterior têm seguido caminhos distintos dentro do governo americano, mas alertou para possíveis pontos de convergência entre as duas agendas. Segundo ela, diferentes órgãos e grupos políticos em Washington atuam de forma relativamente independente na formulação de políticas relacionadas ao Brasil, o que contribui para a complexidade do cenário.

Eleições de 2026 e cenário político

Na avaliação de Silvio Cascione, diretor do escritório brasileiro do Eurasia Group, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito para a disputa presidencial de 2026, embora o cenário ainda seja considerado competitivo.

“O principal indicador continua sendo a aprovação do governo”, afirmou o analista, destacando que o desempenho da economia e a percepção dos eleitores sobre temas como renda e emprego deverão influenciar a corrida eleitoral e as expectativas de investidores e do mercado.

Minerais críticos e agro ganham protagonismo

Os participantes convergiram ao apontar os minerais críticos como uma das principais oportunidades estratégicas para o Brasil na próxima década.

Canuto destacou o potencial do país, que possui reservas relevantes de lítio, grafite, terras raras e nióbio. No entanto, ainda enfrenta dificuldades para desenvolver cadeias industriais capazes de agregar valor a esses recursos.

Bruna Santos observou que parte significativa do potencial mineral brasileiro ainda não foi mapeada e defendeu avanços regulatórios que aumentem a capacidade de atração de investimentos e reduzam entraves burocráticos.

Além da mineração, o agronegócio foi citado como outro setor com oportunidade de crescimento, especialmente em áreas ligadas à produção de fertilizantes e ao desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao campo.

BFBC reforça diálogo econômico entre Brasil e Estados Unidos

Ao encerrar o webinar, a fundadora e presidente do Brazil-Florida Business Council, Sueli Bonaparte, defendeu a importância do intercâmbio de informações e da aproximação institucional para fortalecer as relações econômicas entre os dois países.

Segundo ela, iniciativas como o webinar contribuem para ampliar o entendimento sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos e estimular novos negócios e investimentos.

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