O que era para ser o motor econômico de uma das regiões mais deslumbrantes do Brasil transformou-se em um cenário de isolamento e prejuízos visíveis. A estratégia da prefeitura de taxar turistas e inflacionar as tarifas locais gerou um verdadeiro “tiro pela culatra”. Em vez de arrecadação e sustentabilidade, o município de Bonito colhe hoje o esvaziamento de seus cartões-postais e o desespero de um setor que clama por socorro.
Os dados recentes acenderam uma luz vermelha que já não pode ser ignorada por empresários, guias e governantes: o turismo de Bonito está encolhendo em ritmo assustador.
Queda livre em quatro anos
Os dados levantados a partir dos relatórios oficiais do Voucher Digital/BTMS, compartilhados pelo especialista em turismo e comunicação Breno Teixeira, revelam uma realidade alarmante. Ao analisar o desempenho dos 40 principais passeios do município (sem incluir cortesias) durante o feriado de Corpus Christi — historicamente um dos períodos mais lucrativos do ano —, o diagnóstico é de retração contínua e profunda.
Em apenas quatro anos, o volume de registros despencou 30,8%. Veja a sequência que assusta o comércio local:
- 2023: 12.688 registros
- 2024: 11.076 registros
- 2025: 10.286 registros
- 2026: 8.786 registros
Em termos absolutos, são 3.902 registros a menos. O ano de 2026 registrou o pior tombo do período recente, com uma perda brutal de 1.500 atendimentos em relação ao ano anterior.
Como um único turista costuma realizar de dois a três passeios por dia, a quantidade real de visitantes individuais na cidade é ainda menor do que esses registros apontam. O feriado de Corpus Christi, antes classificado como alta temporada, hoje amarga um movimento que se assemelha à pior das baixas temporadas.
“Tiro no Pé” tarifário
A crise atual ganha contornos ainda mais graves quando analisada a evolução dos preços nos últimos anos. Sob o pretexto de valorização e taxas de conservação, o custo para se visitar Bonito disparou a níveis proibitivos, expulsando o turista.
O exemplo da Gruta do Lago Azul, administrada pelo próprio município, ilustra perfeitamente essa escalada assustadora na baixa temporada:
- 2020: R$ 64
- 2021: R$ 90
- 2023: R$ 110
- 2025/2026: R$ 120
O cenário consegue ser ainda pior na alta temporada (modalidade criada em 2025), onde o ingresso da gruta saltou para R$ 180 — um aumento abusivo de 181% se comparado. O turista reduziu seu tempo de permanência, passa menos noites nos hotéis e consome menos nos restaurantes.
Uma estrutura para pouca demanda
Enquanto o fluxo de visitantes derrete, a oferta turística de Bonito fez o caminho inverso: expandiu-se. O destino hoje conta com muito mais pousadas, hotéis, restaurantes e novos atrativos do que no passado.
A conta, no entanto, simplesmente não fecha. Dos 365 dias do ano, pouco mais de 80 são considerados alta temporada, e destes, talvez apenas 50 dias sustentem de fato uma demanda real. Durante mais de dois terços do ano, a quantidade de turistas é insuficiente para sustentar a estrutura criada.
Tentar mascarar a crise local incluindo os números das vizinhas Bodoquena e Jardim nas estatísticas oficiais não resolve o problema dos empresários de Bonito, que já convivem diariamente com:
- Margens de lucro severamente apertadas;
- Endividamento crescente e sufocante;
- Ameaça real à sustentabilidade dos negócios a curto prazo.
Reflexão crítica
Essa derrocada expõe a lógica predatória que gere o destino. Ao focar em taxas excessivas e reajustes agressivos, o modelo local transforma patrimônios naturais em meros ativos financeiros, ignorando a sobrevivência de trabalhadores e micro investidores locais.
O mercado já deu o veredito pelo Voucher Digital. Se o COMTUR e as lideranças não reverem imediatamente os preços e taxas, o modelo entrará em colapso total. Não é uma crise passageira, mas o esvaziamento de um patrimônio ecológico. Diante de agências vazias, o setor faz um apelo urgente: ou Bonito adota um modelo equilibrado e competitivo, ou a economia local vai desmoronar.
O levantamento foi realizado a partir de gráficos extraídos do sistema Voucher Digital/BTMS:

Fonte: www.b1notícia.com.br





