A política brasileira é um polo gerador de criatividade, mas os limites do surrealismo foram oficialmente atualizados em Campo Grande. Diante do colapso que asfixia a nossa capital, as redes sociais e os bastidores políticos cunharam uma metáfora perfeita, uma sátira cirúrgica de marketing político: o parlamentar “Sabor Vereador”.
Sabe aquele produto ultraprocessado que vem na embalagem com uma foto bonita, mas na verdade só tem aroma artificial idêntico ao natural? Pois é. O “Sabor Vereador” é aquele político que só tem gosto de legislador em temas específicos. Promete fiscalizar, grita no microfone, mas, quando chega a hora de exercer o papel constitucional de abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), ele derrete.
A pergunta que não quer calar e que ecoa em cada esquina da nossa cidade é: por que 20 dos 29 vereadores de Campo Grande se recusam a assinar a CPI da Saúde?
Desculpas e a ambição eleitoral
Para abrir a investigação, são necessárias 10 assinaturas. Apenas 8 parlamentares de garra tiveram a coragem de assinar. O restante? Bom, as justificativas flutuam entre desculpas esfarrapadas e o pragmatismo eleitoral. Alguns afirmam que a CPI serviria apenas de “palco e posts nas redes sociais” em plena pré-campanha de 2026.
É muito barulho, mas não convence: se o argumento é que o ano eleitoral impede a fiscalização, fica o questionamento ao eleitor. Esses mesmos vereadores pretendem disputar as eleições como candidatos a deputado estadual e federal. Se forem eleitos para a Assembleia Legislativa ou para o Congresso Nacional, eles também vão deixar de assinar uma CPI quando o ano for de eleição?
Relembremos o básico do direito constitucional: a principal função de um vereador é criar leis e fiscalizar rigorosamente o uso do dinheiro público. Investigar através de CPIs não é um favor; é uma obrigação inerente ao cargo. Quem se nega a assinar abre mão da própria razão de existir na Câmara.
O “Asfalto de Papel”
O desdém pela fiscalização ganha contornos de cumplicidade quando olhamos para o tamanho do abismo em que Campo Grande foi jogada. Há escândalos para todos os gostos — ou melhor, para todos os “sabores”.
- O asfalto de papel: A Operação “Buraco Sem Fim” revelou que, enquanto o município celebrava contratos de R$ 11,8 milhões para pavimentação, o GECOC descobria um desvio astronômico de R$ 113 milhões desde 2018. Descobriu-se o uso de “lixo no asfalto” e a existência de obras fantasmas. Engenheiros foram presos, R$ 429 mil em espécie foram apreendidos, mas as crateras físicas e financeiras continuam abertas. Na primeira chuva, o asfalto derrete e o cidadão enxerga a corrupção materializada na lama.
- A escuridão: Ao olharmos para cima em busca de alento, encontramos o breu. A Operação “Apagar das Luzes” demonstrou que a taxa de iluminação (COSIP) foi transformada em balcão de negócios, com superfaturamentos estimados em mais de R$ 110 milhões através de empresas de fachada. Roubaram a segurança noturna das famílias para enriquecimento ilícito.
Onde a omissão custa vidas
Se usar o dinheiro do asfalto e da luz para outros fins é revoltante, o que acontece na saúde é uma fratura exposta na alma de Campo Grande. Enquanto faltam itens básicos como gaze e esparadrapo na UPA Leblon, o Tribunal de Contas da União (TCU) aponta o remanejamento indevido de R$ 156,8 milhões do Fundo Municipal de Saúde, dentro de um “buraco negro” de R$ 580 milhões sem esclarecimento plausível.
A negligência atinge o ápice da desumanidade na Operação “OncoJuris”, que apura o desvio de R$ 78 milhões em medicamentos oncológicos. Sumir com o remédio ou usá-lo em outra finalidade no tratamento de um paciente com câncer não é apenas improbidade; é um crime humanitário. Enquanto isso, crianças morrem nas UPAs após peregrinações desesperadas de suas mães por atendimento, e ambulâncias novas ficam intencionalmente encostadas enquanto o município gasta fortunas alugando veículos privados.
Diante de mortes suspeitas na Santa Casa, falta de médicos especialistas e caos generalizado, a maioria dos nossos vereadores prefere o silêncio.
Um sopro de esperança
O cenário é doloroso e, de fato, faz chorar. O transporte coletivo segue sufocando o trabalhador em ônibus lotados, enquanto o Consórcio Guaicurus abocanha R$ 72,7 milhões em subvenções. Integrar aquela que já é apontada como uma das piores legislaturas da história da Câmara de Campo Grande parece não incomodar os omissos.
Mas é justamente na dor que nasce a urgência da mudança. A verdadeira resposta não é o desânimo, é a cobrança viva, ativa e implacável. A esperança de Campo Grande reside na capacidade do seu povo de resgatar a dignidade da política.
Faça a sua parte. Exerça sua cidadania. Ligue para a Câmara Municipal de Campo Grande no telefone (67) 3316-1500 ou vá até a Avenida Ricardo Brandão, 1600 (o atendimento ao público é de segunda a sexta-feira, das 07h00 às 18h00).
Questione, cobre e procure saber: o parlamentar que você elegeu é um representante completo ou apenas um “Sabor Vereador”? A vida do campo-grandense está por um fio, e nós não aceitaremos mais a omissão.
Para registrar: “Sabor Cowboy” é uma música sertaneja de Marco Brasil Filho, João Nelore & Texano e DJ Kevin. O lançamento virou meme viral nas redes sociais brasileiras por ironizar pessoas que adotam o estilo de vida sertanejo apenas por aparência, sem conexão real com o campo.
Por Antonio Ueno






