O Brasil enfrenta uma de suas crises mais profundas. A linha entre criminalidade, macroeconomia e o poder político sumiu. O crime organizado deixou de ser um caso de polícia para se tornar uma ameaça direta à soberania do país.
O cientista político Antonio Ueno analisa nesta reportagem os gargalos institucionais e a falta de atitude que impedem o Estado de sufocar as facções.
O impasse Diplomático
Recentemente, o governo brasileiro criticou os Estados Unidos por classificarem facções nacionais — como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como organizações terroristas. A diplomacia brasileira alega preocupação com a soberania nacional, mas o recado prático das ruas é outro.
Para Antonio Ueno, a reação oficial esconde o tamanho do problema:
“O governo teme sanções ou intervenções, mas o modus operandi dessas facções já é puro terrorismo. Elas controlam territórios, fecham o comércio, decretam toque de recolher e executam agentes públicos. Tratar esses grupos como reles ‘criminosos comuns’ é um erro estratégico que subestima o poder de fogo e o gigantismo financeiro que eles alcançaram”, adverte Ueno.
A cobrança sobre as Forças Armadas
A sociedade cobra: Por que o governo federal não usa o Exército para fechar as fronteiras contra armas e drogas? A resposta oficial culpa a geografia e as leis, mas esbarra na falta de vontade política para coordenar uma reação de verdade.
O país tem 16.886 km de fronteira terrestre. Mato Grosso do Sul, por exemplo, lida sozinho com 1.517 km de divisa seca com Bolívia e Paraguai — os maiores produtores de cocaína e maconha da América do Sul. O estado virou o principal corredor do tráfico para o resto do Brasil e Europa, arcando com uma conta logística que o caixa estadual não aguenta.
Constitucionalmente, as Forças Armadas focam na defesa contra ameaças externas. Embora atuem em operações temporárias de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), o policiamento do dia a dia cabe às polícias.
“Militarizar a fronteira sem inteligência é enxugar gelo. O crime é fluido e usa rotas clandestinas que mudam assim que o Exército aparece. O que falta não é apenas soldado na mata, mas um sistema integrado e contínuo de inteligência que os governos teimam em não consolidar”, aponta o cientista político.
Radiografia do Poder
As duas maiores organizações criminosas do Brasil mudaram de patamar, dividindo o país em dois modelos de atuação:
Rio de Janeiro: A Ditadura das Taxas
O crime no RJ é dividido entre o Comando Vermelho (CV) — dono do maior poder bélico —, o Terceiro Comando Puro (TCP) e as milícias. Juntos, esses grupos dominam quase metade da população do estado. Eles viraram máfias territoriais: controlam a venda de gás, água, internet, TV a cabo e cobram taxas de “segurança” de comerciantes. Quem não paga, morre.
São Paulo: A Multinacional do Crime
O PCC evoluiu de facção prisional para uma máfia corporativa com mais de 40 mil membros e faturamento estimado pelo Ministério Público em R$ 10 bilhões anuais, operando em 28 países. A nova tática é a “pejotização” do crime, infiltrando-se na economia legal:
- Combustíveis: Compra de redes de postos e distribuidoras para lavagem de dinheiro e sonegação.
- Transporte Coletivo: Infiltração em frotas de vans e cooperativas de ônibus urbanos.
- Entretenimento: Uso de produtoras de eventos, redes logísticas e influenciadores digitais para movimentar o caixa oculto.
Os cinco pilares da ineficiência do Estado
Por que o Estado brasileiro não consegue vencer essa guerra? Antonio Ueno resume o fracasso em cinco pontos críticos:
- 1. Prisões como QG do Crime: O sistema prisional superlotado serve de escritório para as facções. Líderes comandam crimes nas ruas de dentro das celas, enquanto pequenos criminosos são forçados a se batizar nas facções para sobreviver.
- 2. Fragmentação e Vaidade Policial: A segurança pública é partida. A PM faz o patrulhamento, a Civil investiga e a Federal cuida do crime transnacional. A falta de bancos de dados unificados e a rivalidade entre as forças impedem o combate eficiente.
- 3. Corrupção Institucional: O crime organizado infiltrou-se no aparelho estatal. Agentes públicos, policiais e políticos corruptos vazam operações e garantem a impunidade das cúpulas criminosas.
- 4. Jogo de Empurra Federativo: No Mato Grosso do Sul, o tráfico responde por 40% dos presos, custando mais de R$ 200 milhões por ano. O Estado acionou o STF para que a União pague a conta, já que o tráfico é crime federal. A União se esquiva dizendo que a execução penal é estadual. Enquanto brigam na justiça, o sistema colapsa.
- 5. Abandono Social: Nas periferias onde o Estado não entrega saúde, educação e saneamento, o crime assume o papel de provedor, ditando uma justiça paralela e recrutando jovens sem perspectiva.
O poder Legislativo
A cobrança sobre o Congresso Nacional é severa. Deputados e senadores insistem em respostas populistas, como o simples aumento de penas, ignorando a estrutura financeira que banca o crime.
“Prender quem segura o fuzil na favela não faz cócegas no crime; a mão de obra deles é perfeitamente substituível. O Congresso é omisso ao não criar leis duras que facilitem o confisco imediato de bens e bloqueiem de verdade o financiamento político. O crime organizado só vai recuar quando o dinheiro deles parar de eleger representantes”, critica Ueno.
O que aprender com o Mundo?
- Itália: Criou o regime prisional 41-bis, isolando totalmente os chefes mafiosos do ambiente externo, além de confiscar os bens da máfia e entregá-los diretamente para uso social.
- Estados Unidos: Foco na asfixia financeira por meio de forças-tarefa integradas entre agências (FBI, DEA, receita federal americana) e uso pesado da delação premiada para desmantelar as chefias.
- Colômbia: Uniu inteligência policial à transformação urbana, investindo massivamente em infraestrutura e educação nas áreas mais dominadas pelo narcotráfico.
O diagnóstico Final
O Brasil tem ferramentas como a Polícia Federal e a SENASP, mas a resposta política continua lenta, covarde e fragmentada.
“Enquanto tratarmos o crime organizado como um problema de ‘polícia contra bandido’, continuaremos enxugando gelo. A virada de jogo exige: unificação real das inteligências, asfixia das empresas de fachada, reforma radical dos presídios e um pacto federativo onde a União assuma a conta das fronteiras. O crime opera como multinacional; o Estado brasileiro não pode continuar agindo de forma paroquial”, conclui Ueno.
Por Antonio Ueno – Cientista Político.




