Mato Grosso do Sul elegeu, no último domingo (2), 12 vereadores indígenas. Representando, ao menos, duas etnias, como a Terena e a Guarani Nhandeva, os novos parlamentares simbolizam para muitas comunidades uma esperança no avanço de políticas públicas e a introdução de assuntos deixados de lado pelos 'brancos'.
Os 12 eleitos, no entanto, também serão observados de perto pelas comunidades, que já declararam que devem acompanhar a atuação dos parlamentares. Os parlamentares foram eleitos em Amambai, Caarapó, Dois Irmãos do Buriti, Japorã, Miranda, Paranhos, Sidrolândia e Tacuru.
Alécio Soares (PSDB) 41, foi eleito em Caarapó – distante cerca de 270 quilômetros de Campo Grande -, com 627 votos, o 8º mais votado dos 11 vereadores eleitos no município. Natural da reserva Tey kue, Alécio é professor.
“Agora, com a visão que a gente está, a gente percebe que precisamos de um representante. É isso que a comunidade vem percebendo. A cada quatro anos tem troca de vereador, quando elege o cidadão, ele tem que mostrar a sua habilidade como parlamentar. Eu fui muito vitorioso porque eu já sou da área da educação e nesse trabalho as pessoas vem percebendo como eu sou”.
Alécio afirma que a escolha pelo partido não se deu pelos mesmos motivos que, segundo ele, permeiam as escolhas de legendas por pessoas não indígenas. “Eu como pessoa, como cidadão brasileiro, e nós povos indígenas, pra mim, pra minha pessoa partido não é tão importante, porque o que depende é a pessoa fazer um bom trabalho para os povos indígenas”, afirma, complementando que o fato do governador pertencer à legenda, pode motivar mais diálogo.
Questionado sobre as 'retomadas' – ocupações de terra motivadas pela demora nos processos de demarcação -, Alécio responde que analisa a questão 'pelos dois lados', mas que entende a realidade vivida pelos índios em Mato Grosso do Sul.
“A questão da retomada eu acho que sou novo nessa área, mas o que eu percebo, que já vem há anos, é que o culpado nesse meio todo é o governo federal, eu não acho que é a comunidade indígena ou os povos brancos. Eu acho que é direito da população indígena. E eu acho que o governo tem que resolver a questão”, defende.
Uma das lideranças da terra recém 'retomada' – onde o último episódio sangrento do conflito de terras culminou com o assassinato do agente de saúde indígena, o Guarani e Kaiwoá Clodiode Aquiles Rodrigues -, Elson Canteiro Gomes, 28, Guarani e Kaiowá que participa de outras instâncias políticas, como o Aty Guasu – conselho político dos kaiowá -, enxerga a eleição de forma positiva, mas também, de forma crítica.
“Pra gente, um vereador indígena tem que representar e defender uma causa na Câmara, Tem a questão da educação, da saúde, não importa onde a comunidade esteja localizada, na reserva, terra demarcada ou na retomada, no meu entendimento esse é um representante, o vereador é elegido pelo povo, queremos que ele represente”, afirma.
Elson discorda um pouco de Alécio quanto às legendas. Para o kaiowá, que também é professor, há partidos que atuam, em totalidade, contra a causa indígena. “No meu ponto de avaliação, primeiro eu avalio os projetos que chegam até a comunidade indígena e quais seriam os partidos que atendem a demanda. Quando eu fui dialogar com ele eu falei assim, o que significa esse partido? Nem todos políticos defendem a causa”, afirmou.
Elson, ainda assim, pretende acompanhar e desenvolver projetos junto ao parlamentar. “Nós vamos trabalhar, afinal nossa comunidade precisa de apoio, afinal, como professor, eu vejo que o povo precisa de mim”.
Mulheres eleitas
Entre os 12 vereadores, duas mulheres foram eleitas. Adelina Amurilio (PRP), 38, foi a terceira vereadora mais votada na cidade de Japorã, onde se elegeu em uma Câmara com nove parlamentares, entre eles mais um indígena, Joaquim Adiala Hara (PRP). Adelina trabalhava na Sesai (Secretaria especial de saúde indígena) como agente de saúde. Além de Adelina, Luzia Montiel (DEM) foi eleita em Tacuru com 230 votos. Na cidade, um dos únicos parlamentares eleitos pelo PT no Estado, o índio Valino Goulart Gomes foi o 3º mais votado.
Leila é uma das mulheres líderes da retomada da terra Ivy Katu – território Guarani e Kaiowá que já foi declarado, mas não homologado -, na região de Japorã. Ela vê a eleição de mulheres como uma conquista, mas afirma que, até hoje, vereadores indígenas que já foram eleitos, não vão à comunidade apresentar projetos.





